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eixo do fora #14: Por que estar junto?

eixo do fora #14: Por que estar junto? [*], por Dally Schwarz

[Acima, o vídeo “O Bando” [1] integra o projeto Dança Que Ninguém Quer Ver, da Gira Dança, companhia de Natal (RN) que trabalha com corpos diferenciados]

 

Que dança é essa que nós queremos fazer/ser enquanto bando que dança? Para tanto, acreditamos ser essencial um trabalho de cunho processual e colaborativo, repleto de tensões e estruturas situacionais abertas à improvisação, que potencializem a fricção entre as particularidades destes seres dançantes no instante do acontecimento dança.
[Gira Dança sobre Dança Que Ninguém Quer Ver]

 

Perceber o Gira como um bando

Ano passado assisti o espetáculo Dança Que Ninguém Quer Ver durante a ocupação EntreDanças promovida pelo SESC no Teatro Ginástico (RJ). Assisti de perto, sentada em uma das cadeiras que estavam disponíveis no palco. Intrigada com o trabalho e interessada no projeto trans-mídia (que envolve website, documentário, residências), me deparei com “O Bando”.

Assistir o vídeo na net, com certeza, mudou a forma de lembrar do trabalho. Agora, existem outras conexões necessárias para dar conta. Ver “O Bando” é rever o espetáculo e todos os momentos do encontro no teatro.

Por que estamos aqui com o Gira?

Durante o espetáculo há troca com o público o tempo todo. No dia de estreia, o Gira esteve disponível para uma conversa após a sessão. Tão bom ter o contato, conversar e poder chegar mais próximo, mas, infelizmente, a plateia do Rio de Janeiro não consegue ir além das suas limitações ao ver somente o outro como diferente, e insiste em conversas sobre uma camada mais superficial sem conseguir discorrer sobre dança.

O problema da plateia é o seguinte: ainda existe uma curiosidade estranha e uma surpresa ao perceber que os corpos diferenciados são tão capazes e poéticos quanto os não diferenciados. Isso nos torna burros e incapazes de dialogar entre diferentes; me leva a pensar que estamos acostumados com uma ideia de normalidade.

Sempre que testemunho esses momentos, me bate aquela sensação de que deve ser muito chato para o artista “de corpo diferenciado” falar sobre “essa sua diferenciação”, enquanto outros assuntos do trabalho estão ali em jogo. A plateia insiste em conversar não sobre o processo de criação e a poética do trabalho, mas sobre um assunto que está a todo momento ali – e que nunca vai deixar de estar enquanto na nossa cabeça a norma permanecer como ponto de partida e o olho (e o olhar piedoso) for mais valorizado que o ventre.

Por que, para que e para quem dançar em grupo?

A estética e a ética do estar junto da companhia (ou do bando) nos aproxima de um pensamento também muito presente no trabalho do Grupo Cena 11 Companhia de Dança (SC): interesses em pesquisas de movimento, risco, formas de se relacionar em dança como possíveis composições em grupo. Dessa forma, é possível pensar numa conexão entre o vídeo “O Bando” e o filme “Corpo Vodu” (2015) do Cena 11.

Leia mais:  O corpo-processo no vídeo "Mapa 01"

Enquanto o pensamento do Gira Dança se aproxima de um espírito de bando – de uma porção menos humanista que, através do corpo e suas sensações, se relaciona pela pulsação, respiração e contágio – o Cena 11 diz que aquilo que toca a plateia (o corpo atingido pelas agulhas do boneco) é exatamente o fato de sermos da mesma espécie: humana ou animal racional. Na realidade, eles não falam de lugares opostos – dizem a mesma coisa através de perspectivas distintas. Tratam da relação do ser com o mundo, o movimento, a linguagem, os agrupamentos e a dança.

A escolha por processos mais demorados, mais intensos e mais trans-mídia tem sido feita por grupos, coletivos e companhias de dança. Uma proposta interessante para dar corpo aos trabalhos contemporâneos, ir além do registro, do lugar de ensaio – que, inclusive, não dá conta de algumas propostas.

O mundo foi se complexificando, assim como as tecnologias, e fica cada vez mais interessante intricar as formas de comunicar e fazer contato através da dança contemporânea. As experiências de assistir um vídeo, filme ou espetáculo serão distintas, passíveis de complementaridade – ou, dependendo das propostas, até indiferentes uma a outra.

Aqui, novamente podemos fazer referência ao grupo Cena 11, em Protocolo Elefante. O trabalho celebra 20 anos de atividade da companhia e aborda exatamente essas questões. Traz à cena um processo de pensar-repensar o estar junto depois de um longo período de criações e invenções estéticas na dança. Pois, a dança se interessa pelas relações humanas – e cada vez mais coreógrafos, bailarinos e artistas da dança pensam as relações humanas enquanto dança.

Em bandos ou manadas, pelo norte ou sul do país, completando uma ou duas dúzias com suas diferenças ou similaridades, a dança toca o rumo e segue em agrupamentos e reorganizações, desenvolvendo composições, corporeidades, pensamentos. Dança Que Ninguém Quer Ver é mais que uma dança – é um projeto de dança. Se acessarmos o site, podemos ler sobre o processo, ver vídeos, acompanhar escritas. Estar junto.

 

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[1] “O Bando” é um documentário realizado a partir do processo de construção do espetáculo Dança Que Ninguém Quer Ver, obra comemorativa dos 10 anos da companhia Gira Dança. O diretor Carito Cavalcanti acompanhou, durante meses, todo o processo até a estreia em São Paulo, participando de uma verdadeira imersão. O doc transcende o momento específico do espetáculo, refletindo o espírito do Bando Gira Dança e sua gênese nessa trajetória de uma década.

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally Schwarz para ctrl+alt+dança.

 

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