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“Dançar (não) é Preciso”: Paulo Marques comenta espetáculo

"Dançar (não) é Preciso", com a Esther Weitzman Companhia de Dança / foto: Renato Mangolin
“Dançar (não) é Preciso”, com a Esther Weitzman Companhia de Dança / foto: Renato Mangolin

Dançar (não) é Preciso é o novo espetáculo da Esther Weitzman Companhia de Dança [1], que completa 17 anos de existência em 2016. Esther, neste trabalho, dialoga com a pintura de Jackson Pollock, mas é com Fernando Pessoa que ela sugere uma primeira imagem subjetiva. 

Pessoa não imaginava que as suas palavras navegariam e se transformariam por mares tão distantes no tempo. pintor se entregou de corpo e alma às pinturas e em palavras define que “a mão, o braço e o corpo do artista não dependem da vontade nem da mente, mas são instrumento de uma espécie de furor e euforia, desligados de quaisquer normas de composição e estéticas”. O ‘Dripping’, método de pintura desenvolvido por ele, que consistia na aplicação da tinta com um bastão ou um pincel sem que estes chegassem a tocar a tela, me transporta para a dança pensada pela coreógrafa que cria uma sensação de suspensão no tempo e no espaço. Aqui os bailarinos se manifestam como uma tempestade que não se submete às marcas objetivas, fazendo, ao meu ver, uma referência corpórea ao método do pintor. 

No espetáculoEsther não se concentra em uma composição que valoriza o que é para ser visto, ela convida o público a dançar com a visão em um estado de vida constante, como um motor ligado que está parado. Não há aonde ir, não há hora para se chegar, ela sugere que você se submeta. Não existem vazios na composição, existem espaços que ainda não foram ocupados, condutores de motivo. Uma instabilidade que se encontra realmente distante da ideia de uma dança fechada e resolvida na forma, sugerindo envolvimento e permuta.

Reforçando estes aspectos subjetivos e potentes, trago Michel Bernard, que na sua obra “Dança e Utopia” definia que a dança “não está para além do real, mas tece pela atividade permanente de nossa percepção” [2] – ao meu ver, os elementos que dão suporte à obra concordam com os motivos da criadora. Vale destacar a configuração espacial do espetáculo, que potencializa as presenças ativas no recinto, e o elenco, que soube com inteligência tirar partido da sua jovem e bruta natureza. 

Em concordância com esta açãoo poeta filosofaNão conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso /  Só quero torná-la grande, ainda que para isso / Tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo [3].

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Esther acaba de fazer uma curva precisa em sua carreira. 

   

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[1] Dançar (não) é Preciso fica em cartaz no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto até 27/jun, com sessões aos sábados, domingos e segundas-feiras, às 20h.

[2] BERNARD, Michel. “Des utopies à l’utopique ou quelques réflexions désabusées sur l’art du temps”. In: Mobiles 1: Danse et utopie. Paris: L’Harmattan, 1999.

[3] PESSOA, Fernando. Poesias. São Paulo: L&PM Editores, 1993.

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