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Velha roupa colorida

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fonte: statig.com.br

Conversando com uma amiga, ambos nos espantamos ao conferir que alguns de nossos conhecidos, os rebeldes na época do colégio, atualmente se mostram os mais retrógrados em seus discursos. Ela e eu, diante deles, hoje, parecemos subversivos simplesmente por nossas convicções tão distantes do conservadorismo genérico do senso comum. Ficamos, então, tentando especular sobre as possíveis razões para o que consideramos um retrocesso dessas pessoas. Nessa hora, me lembrei dos versos de ‘Velha Roupa Colorida’, clássico de Belchior de 1976, imortalizado na voz de Elis Regina: “O que há algum tempo era novo, jovem / Hoje é antigo / E precisamos todos rejuvenescer”.

No contexto atual, não seria exagero dizer que estamos atravessando um período de transformações, tão vertiginosas quanto imprevisíveis, em praticamente todos os campos: político, social, econômico, cultural, ambiental… Consequentemente, muitos conflitos emergem o tempo todo, no mundo inteiro, ocasionados pelo confronto das diferenças – de ideias, desejos, crenças… Ora, mudanças são necessárias e bem-vindas, pois, do contrário, não haveria evolução, transformação ou qualquer progresso em nenhuma esfera. No entanto, paradoxalmente, o progresso (que tem seu preço) tem trazido incertezas, desintegrado velhos paradigmas e estabelecido outros novos. E, na medida em que vem modificando a experiência de tempo e espaço da humanidade, interfere significativamente na cultura e nas relações sociais dos indivíduos.

Num tempo em que uma pessoa é violentamente agredida numa das avenidas mais conhecidas do Brasil – com uma lâmpada fluorescente na cabeça – por sua inclinação sexual, em que o estupro de mulheres é banalizado nas redes sociais e na TV, em que se apedreja uma criança de 11 anos por causa de intolerância religiosa, em que um deputado homenageia um torturador em plena Câmara Municipal – ao vivo em rede nacional – entre outras mazelas vistas diariamente mundo afora, não seria emergencial a busca por uma nova compreensão de como ser/estar num mundo cada vez mais acelerado e instável, que se desorganiza e se reorganiza constantemente?

Problematizar algumas questões será importante para tentarmos descobrir – e atravessar – as fronteiras que limitam nossa existência, já que muitos são os que não se permitem um olhar sincero para dentro de si, não se arriscando a trilhar um caminho para além do preestabelecido. Para o nosso próprio bem, somente se nos lançarmos ao abismo, encarando nossos medos, desejos, dificuldades e fragilidades, poderemos ampliar o sentido de liberdade e vislumbrar novos horizontes na tentativa de repensar nossas atitudes para evoluirmos com o mundo e em nossas relações.

O sociólogo e filósofo francês Edgar Morin ressalta que o inesperado nos surpreende. É que nos instalamos de maneira segura em nossas teorias e ideias, e estas não têm estrutura para acolher o novo. Entretanto, o novo brota sem parar. Não podemos jamais prever como se apresentará, mas deve-se esperar sua chegada, ou seja, esperar o inesperado. E quando ele se manifesta, é preciso ser capaz de rever nossas teorias e ideias, em vez de deixar o fato novo entrar à força na teoria incapaz de recebê-lo.

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Bem, chegou a hora de se perguntar: mas como se libertar de amarras tão arraigadas, que nos impedem de enfrentar os riscos iminentes do percurso e de olhar o outro com mais benevolência, sem pré-julgamentos?

Claro que não existe uma resposta imediata para essa questão. Contudo, um bom começo seria admitirmos que somos seres complexos; logo, uma simplificação não nos ajudará na compreensão da dificuldade que temos ao lidar com as diferenças, as incertezas do nosso tempo… a dificuldade de assumir a responsabilidade por nossas atitudes ou mesmo pela falta delas. Se somos condenados a ser livres, como já disse Sartre, devemos encontrar um meio de convivência pacífica, respeitando os direitos do outro se quisermos ter os nossos respeitados. E todos queremos, não é mesmo?

Nessa história toda, a cereja do bolo talvez seja a investida em autoconhecimento por meio de uma abordagem corporal e sob uma perspectiva multidimensional, considerando que o corpo não é algo separado do mundo, mas parte dele. Ele é a própria existência, pois todas as nossas experiências, tudo o que nos concebe como indivíduos da espécie humana se dá pela via corporal.

Parece que ainda não sacamos que o corpo é a nossa representação no mundo; que ele está em todas as ações que realizamos, sejam elas conscientes ou inconscientes, de modo que muitos dos nossos infortúnios têm origem nessa falta de consciência. Muitas vezes, não sabemos o que podemos nem o que devemos fazer, e deixamos de aproveitar toda a potencialidade de que o corpo dispõe.

Para além dos aspectos físicos e anatômicos do corpo, urge a percepção dos seus aspectos socioculturais e relacionais, o que implica em enxergá-lo na sua totalidade – considerando a realidade multidimensional que o abrange, entendendo que isso significa tratar dos paradigmas que envolvem o desenvolvimento humano. Em tempos marcados pela velocidade da informação, pelo imediatismo e frivolidade das relações, lançar-se nesta empreitada pode ser o grande salto para uma vida com maior liberdade e autonomia, o que nos colocará em harmonia com o nosso próprio tempo.

Voltando à canção de Belchior: no presente, o corpo, a mente, é diferente, e o passado é uma roupa que não nos serve mais.

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