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eixo do fora #16: “Body”

eixo do fora #16: “Body” [*], por Dally Schwarz

O filme Body (Cialo,2015), da diretora polonesa M​algorzata Szumowska, traz o corpo visível e invisível para a tela. Na obra, a personagem Anna (M​aja Ostaszewska) me chamou atenção: uma terapeuta corporal que trabalha com jovens mulheres que apresentam distúrbios alimentares – uma delas, Olga (Justyna Suwala), apresenta transtorno de bulimia, anorexia e depressão. O filme inclui imagens muito interessantes do trabalho de Anna como terapeuta, abordando temáticas do corpo, da espiritualidade e do campo dos desejos de conexão.

Essa reflexão atravessa o campo da dança quando pensamos em toda a sua relação com as áreas somática e de saúde psicofísica. Digo isso, pois diante das críticas de cinema, infelizmente só me deparei com visões pouco sensíveis ao filme – que, em sua maioria, não percebem como ele pode contribuir aos estudos e formações de profissionais da área de sáude, dança e terapias.

Como pode a dança, ou trabalhos que envolvem o corpo, auxiliar em processos de cura?

Em Body, o corpo magricelo, desenergizado e cansado é protagonista; há cenas muito fortes, em que as mulheres aparecem sempre com o corpo muito fragilizado, curvado e magro. Aquilo que já virou moda e foi estetizado por diversas culturas como um corpo estranho é muitas vezes resultado ou forma de processos de vidas em sofrimento ou sobrevivência.

Durante todo o filme, o trabalho de Anna – que, além de tudo, é uma pessoa espiritualizada (acredito que independe de religião, mas aqui se trata da conexão da personagem com a fé) – apresenta uma visão muito vibrante de mundo e de vida, além da valorização do corpo e da expressão para os seres humanos – no caso, mulheres que apresentavam traumas e travas em seus corpos.

No Brasil, existem alguns trabalhos, escolas e abordagens que integram dança e práticas somáticas. Lembramos de Klauss Vianna, Angel Vianna, Ivaldo Bertazzo, José Antonio Lima, e de body-mind centering, biodanza, somaterapia, yoga, entre muitos outros.

A partir da pergunta “Como podem a dança e os trabalhos corporais ajudar em processos de cura?”, converso com Monica da Costa Aduni – co​reógrafa, professora, psicóloga e pesquisadora de dança afro­-contemporânea – sobre sua vivência entre centros psiquiátricos, espaços de dança e casas religiosas de candomblé.

Dally Schwarz: Monica, você pode falar um pouco sobre a sua trajetória e como foi esse caminho entre dança, clínica e espiritualidade?

Monica da Costa Aduni: Durante minha formação na graduação em Psicologia, trabalhei muito com psicologia social e pesquisa, quando me aproximei do universo da reforma psiquiátrica e da saúde mental. Já próximo do final da graduação em 2002, voltei a dançar pelos caminhos da dança contemporânea. Fui buscar a dança por uma cura para mim. Na época, essa cura tinha a ver com uma conquista de liberdade, expressividade e retomada do meu corpo. Durante o processo de estudos para a entrada na universidade, criei algumas cisões – uma delas foi ficar muito mental. Em 2008, ao começar uma pesquisa autoral com direção de Renato Santos, diretor de teatro e sacerdote de Ifá, retomei uma vida espiritual. Tinha me desligado de qualquer prática espiritual desde a adolescência. Eu era super cética, marxista, e comecei a perceber que algumas perturbações que eu tinha se relacionavam com a espiritualidade.

Dally: Mas no curso de Psicologia, vocês tinham cadeiras que trabalhavam com abordagens corporais?

Monica: Na UERJ nós tínhamos contato com b​iodanza e somaterapia. Na época, eu não me sentia tão convocada por essas cadeiras. Tínhamos outras possibilidades com essas terapêuticas corporais, com certeza, mas naquela época, não fiz essa escolha. Cheguei a fazer umas oficinas, mas nada me tocou tanto. Achava muito hippie. Por outro lado, trabalhei na Casa da Árvore​, um projeto de extensão da UERJ que atendia famílias em áreas de comunidades e tem como pensamento uma herança da psicanalista Françoise Dolto. O projeto tinha uma preocupção de traduzir suas ideias para o contexto brasileiro e isso me interessou muito. Eu não estava trabalhando com as terapêuticas corporais, mas estava já em contato com a perspectiva da construção da imagem inconsciente do corpo. Depois dessa experiência, trabalhei na enfermaria de crise feminina na Casa do Sol, no Instituto Nise da Silveira. Fiz um estágio e comecei a acompanhar algumas pacientes específicas, com as quais trabalhávamos muito no centro de convivência. Já era um movimento para fora dos hospícios de convivência social e familiar. Na época, eu e mais outros estagiários começamos uma oficina livre de teatro. Eu não tinha nenhuma formação de teatro, mas as outras duas pessoas, sim. Daí, comecei a sentir muita necessidade de me explorar mais. Lembro que, em 2002, estava acompanhando uma paciente pelo pátio enquanto acontecia uma apresentação de balé do pessoal do Calouste Gulbenkian, daí percebi que eu queria isso para minha vida, voltar a dançar.

Oficina de dança afro-contemporânea / foto: Raphael Poesia
Oficina de dança afro-contemporânea baseada nos pés-de-dança de Orixás e Ancestres, no SESC Santo Amaro (SP), durante o Circuito Vozes do Corpo / foto: Raphael Poesia

Dally: E como aconteceu essa ponte entre a saúde mental e a dança?

Monica: Na verdade, ainda em 2007, no CAPS me encorajei e comecei a dar oficinas de expressão corporal lá mesmo, e no SESC Engenho de Dentro também. Eu estava muito mais para Dança do que para Psicologia. Na época, eu não estudava mais o que a psicologia falava de corpo; preferia escutar o que vinha das experiências práticas e dos estudos da Dança e da Corporeidade. Depois, em 2009, já tinha percorrido um tempo na dança e feito estágio com a Maria Ignez Calfa n​o Laboratório de Arte e Educação ­(LAE), ­do Departamento de Dança da UFRJ. Depois, na minha pesquisa de mestrado na saúde pública, acompanhei o EAT e o trabalho do Lula Wanderley com os objetos relacionais que vêm da Lygia Clark.

Dally: Você já estava envolvida com sua espiritualidade?

Monica: Em 2009, eu já tinha desenvolvido o trabalho Corpo D’Água com o Renato, que veio de um processo que era, ao mesmo tempo, artístico, espiritual e terapêutico. Eu tinha começado o gérmen desse trabalho numa disciplina chamada Simbologia do Movimento, com a Ignez Calfa na UFRJ, e depois fiz o pequeno solo D’Água, orientado por ela. E segui pesquisando, criando e coreografando, depois com a direção do Renato, e mais pra fora da universidade, em residência no Centro Coreográfico entre 2008 e 2009, estreando em 2009. Já começava a visitar algumas casas de candomblé, e umbanda também. Lembro que através do projeto da UFRJ em Tiradentes, com a Ignez, conhecemos a casa de candomblé da Mãe Celina, que já tinha sido professora da UFRJ. Várias pessoas que eu acompanhava naquela época do CAPS tinham alguma história espiritual. A maioria tinha – muitas experiências espirituais já nomeadas, seja no candomblé, na umbanda, no espiritismoFicava instigada a fazer um trabalho terapêutico respeitando a vida espiritual das pessoas. Mais tarde, eu soube que, em alguns países da África, como no Togo e no Benin,e se eu não me engano, em algumas cidades nigerianas, alguns serviços de saúde, conforme a avaliação e necessidade de alguns casos de saúde, encaminham as pessoas para babalawos ou boconôs, e sacerdotisas, que realizam trabalhos de saúde e cura para a população.

foto: Joyce Barbosa
Aula de dança e expressão corporal no Espaço Cultural Pierre Verger (BA) – programa Mais Cultura na Escola / foto: Joyce Barbosa

Dally: Como foi, então, que você integrou esses três campos em seu trabalho?

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Monica: Em todas as aulas, e em toda a construção do meu trabalho de criação e como coreógrafa, tenho interesse e atenção para um recorte subjetivo. Atento para o que está em jogo num processo de criação, qual a importância daquilo para a vida das pessoas, para a saúde… como os elementos da natureza estão presentes nos nossos corpos, como nosso tônus, por exemplo, nossa energia e gestualidade ​têm a ver com isso. Me interessa investigar como as danças de ancestrais e orixás podem ser compreendidas dessa maneira, para depois chegar à forma. Eu sempre tenho uma preocupação de que pessoas se encontrem, seja numa aula ou durante uma criação… que elas encontrem um espaço consigo mesmas, de liberdade para conhecer aquelas energias, e que isso seja motivador para o movimento, que as chame para algo a mais na vida… mais alegria, mais aventura, mais tesão, e não somente que saiam dali dançando um pé-de-dança igual ao fulano ou ciclano. Claro que também é importante se preocupar com a técnica e o pé-de-dança. Em janeiro, dei aulas em Cotonou, capital do Benin, e me recordo de um momento em que as pessoas estavam muito preocupadas em fazer o passo, não estavam se deixando levar pelo movimento. Eu parei tudo e falei: “Não precisam se importar com o passo agora. Se importem com o que essa sensação, esse movimento causa em você. Podem fechar os olhos, não se preocupar se tem alguém olhando ou seguir quem está na frente”.

/ foto: Marina Alves
Monica da Costa e Cintia Rangel em “Da Onde Vem Sua Dança?” (2012) / foto: Marina Alves

Dally: Já conheceu pessoas que acham que seja importante marcar a diferença de uma dança e a conexão com a espiritualidade?

Monica: Olha, já conheci pessoas que querem dançar e estão lá somente para isso… mas até hoje conheci mais o contrário. E para um trabalho de criação, essa forma se torna mais complexa e rica. Uma vez que eu tenho essa formação, e essa é a minha historia, além da minha parceria com o Renato, que me traz mais conhecimento, o meu interesse de trabalho não faz essas dissociações.

Oficina de dança afro-contemporânea baseada nos pés-de-dança de Orixás e Ancestres, no SESC Santo Amaro (SP), durante o Circuito Vozes do Corpo / foto: Raphael Poesia

Dally: Você pode contar sobre um trabalho em parceria com o Renato e como se dão esses cruzamentos entre cuidado, cura, dança e processo de investigação criativa?

Monica: Fizemos um trabalho chamado Se Maria Fosse Bonita, em que trabalhamos energias de feminilidade, masculinidade, as figuras de Marias que foram santificadas pela história política religiosa. O Renato sempre nos atenta sobre até onde ir no trabalho e isso envolve a relação dos intérpretes com sua história de vida – que envolve sua disponibilidade física, de abertura para investigação, sua relação com a espiritualidade. Temos que tomar cuidado, pois nem tudo é suportável para todos, temos nossos limites. Ou seja, temos que tomar cuidado de até onde ir num processo criativo. Nem todas as pessoas têm esse cuidado e preocupação. Muitas vezes, nem pensam qual vai ser a consequência do que se fez fora daquele trabalho. Elas se preocupam mais com o resultado estético, esquecendo de que os mesmos corpos saem do trabalho e continuam seguindo suas vidas.

Dally: Isso é bem importante, independente de qual conexão espiritual ou energética estamos falando. Percebo que em muitos trabalhos de performance, que foi a área que estudei mais durante o meu mestrado na UFRJ, muitas pessoas que entravam em processos mais intensos de pesquisa acabavam com mudanças na expressão, no corpo, depois de uma série de experiências. Comecei a me questionar sobre o quanto era necessário um trabalho de alinhamento, um cuidado mais atento.

Monica: Eu conheço uma colega que surtou mesmo durante a faculdade de dança. Um surto feio. Claro que, se estamos fazendo um trabalho e temos um contato com espiritualidade, é importante ter esse cuidado. Para além das questões espirituais mais religiosas, em relação à qualidade de vida também. A questão da cura na dança é muito forte, temos um poder muito grande. Temos que pensar o que é essa cura para cada um. Pode ser muito simples – o fato de simplesmente dançar e ter uma vida profissional na dança, por exemplo. Esse foi um caminho de cura para mim. Muitas vezes, a dança é o filtro sem o qual eu posso ser um monstro. Posso me tornar uma pessoa horrível se eu não dançar. Ao mesmo tempo, acho que a dança, sem uma conexão mais consciente com a vida e ensimesmada, pode nutrir monstros.

Dally: Hoje você retomou seu trabalho com clínica…

Monica: Descobri que tenho artrite psoriática, uma doença autoimune que pode se tornar uma doença reumática. Na pele, é uma aceleração do processo de renovação epitelial, e isso pode acontecer no nível articular. Dói muito durante a crise. Demorei muito a ter diagnóstico. Fiquei um ou dois meses sem andar. Tinha uma temporada marcada dali há dois meses, o trabalho já estava pronto, e na época eu ainda não estava ensaiando. Remontamos o espetáculo com outros bailarinos. Fiquei muito recolhida. Foi um período em que aprendi várias coisas. Primeiro, voltei a integrar psicologia e dança. Voltei a estudar as terapêuticas corporais vindas da psicologia. Aprendi a repousar, receber, ter limites, aceitar, voltar a ser flexível. Coisas básicas de vida. Lembrei muito de um teórico, Georges Canguilhem, que não faz essa oposição entre saúde e doença (assim como o orixá Obaluaiyê ­Omolu também pode ensinar), mas segue um pensamento de despatologização da vida. Ele diz que a saúde é a capacidade de adoecer e se recuperar­. Então, a saúde engloba a doença, e a doença está dentro da saúde. Um processo pode envolver o outro. Às vezes, uma cura espiritual pode passar por um adoecimento físico, ou vice versa. Então, depois disso, eu decidi voltar pra clínica. Ainda mais quando estava dando aula para crianças e voltei a me perceber não só como professora de dança, mas como alguém que, por um momento, está num lugar de referência na vida de outra pessoa, para além do estritamente profissional, e voltei a ter o desejo de retomar a clínica. Percebo que muitas experiências e ferramentas da dança me serviram para o trabalho clínico:­ as danças afro-­brasileiras e os estudos de suas energias, as práticas de yoga, de body-mind centering, Feldenkrais, a perspectiva do sistema Laban­Bartenieff, o caminho da Cartografia Corporal desenvolvido por Ignez Calfa e outras abordagens de Consciência do Movimento.

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally Schwarz para ctrl+alt+dança.

 

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