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“Amor Geral”: Fábio Honório entrevista Fernanda Abreu

Fernanda Abreu / foto: Gui Paganini, com arte de Giovanni Bianco

Ela é carioca e como diz a canção de Tom e Vinícius de 1963, “basta o jeitinho dela andar” – dançar, cantar e, claro, falar também. Seu sotaque não deixa a menor dúvida, no entanto, mais do que uma personalidade carioca, Fernanda Abreu é Cidadã Benemérita do Rio de Janeiro – título que lhe foi concedido em 2010, pela Câmara Municipal da Cidade, por serviços prestados em prol da cultura carioca. Dito isso, logo vamos saber um pouco a respeito de sua contribuição, ideias, carreira e mais…

A cantora e compositora acaba de lançar seu oitavo álbum, Amor Geral, após um hiato de dez anos sem gravar. O primeiro single do álbum, “Outro Sim” ganhou um belo clipe dirigido por Mini Kerti e coreografado por Dani Lima (confira o vídeo acima).

Em entrevista exclusiva para o ctrl+alt+dança, Fernanda revisita suas memórias para nos contar, entre outras coisas, sobre a relação de longa data com a dança. A artista relembra, por exemplo, os tempos de bailarina – quando dançou ao lado de Deborah Colker e Guto Macedo no Coringa, grupo ícone da dança contemporânea carioca nos anos 1980, liderado pela bailarina uruguaia Graciela Figueroa.

E, por falar no tempo, este parece não passar pra ela: aos 54 anos, mãe de Sofia (24) e Alice (16), Fernanda impressiona pela beleza e jovialidade explícitas na boa forma de um corpo esculpido por anos de balé clássico. Confira nosso bate-papo e “olha o jeitinho dela falar”:

 

Fábio Honório: Seu primeiro álbum solo, “SLA Radical Dance Disco Club”, de 1990, trazia no encarte a seguinte citação do livro “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe“Se visses como ela dança! Todo o seu coração, toda a sua alma estão ali; todo o seu corpo é de uma harmonia e de um tal abandono que a dança parece ser tudo para ele, não ter outro pensamento, não sentir mais coisa alguma e, certamente, tudo o mais desaparecer.” Essas palavras ainda continuam fazendo sentido pra você?

Fernanda Abreu: A dança é vital pra quem dançar é vital! A vida pra mim não existe sem a dança. Faço música pra dançar! Amo música e amo a dança! A dança entrou na minha vida aos 9 anos e nunca mais será possível eu viver sem ela.

Fábio: Você começou no balé ainda criança, por recomendação médica, para corrigir um problema ortopédico. Dessa experiência inicial no balé até perceber que a dança estava virando coisa séria, como foi?

Fernanda: Foi completamente natural. Me apaixonei. Comecei logo com a mestra Tatiana Leskova, que me arrebatou! Aprendi muito mais que passos de dança com ela. Aprendi um norte na arte. Disciplina, determinação e humildade. Saber que sempre podemos ultrapassar nossos limites e que essa busca é fundamental na arte.

Fábio: Você dançou no Coringa, um dos grupos de dança contemporânea mais importantes do Rio nos anos 1980. De acordo com Giselle Ruiz, no livro “Graciela e Grupo Coringa – a dança contemporânea carioca dos anos 1970/80”, Graciela provavelmente não tinha idéia de que, com sua dança e o Grupo, estaria verdadeiramente fazendo história, participando ativamente da construção da dança contemporânea carioca. Você concorda?

Fernanda: Concordo totalmente. Comecei na danca contemporânea com Carlos Afonso – um mestre, infelizmente, já falecido. Carlos Afonso foi também fundamental, junto com Angel Vianna e Graciela, pro desenvolvimento da linguagem da dança contemporânea do Brasil. Carlos criou o grupo Fonte, em 1980, do qual fiz parte. Depois mais tarde, como era frequentadora das aulas de Graciela, ela me chamou pra dançar e tive o privilégio de fazer parte da companhia durante um período. Trabalhar com Carlos Afonso e Graciela foi um aprendizado extraordinário pra mim que, até então, dançava apenas o ballet clássico.

Fábio: Você chegou a cursar um período de Arquitetura na UFRJ, quase terminou Sociologia na PUC-Rio e, faltando pouco pra se formar, abandonou o curso quando entrou para a Blitz. Foi por causa da banda que você deixou a carreira de bailarina?

Fernanda: Sim. A Blitz foi totalmente absorvente. Não dava pra fazer mais nada! Levei pra Blitz todo o meu conhecimento e aprendizado de ballet e dança contemporânea, e de ginástica olímpica, que fiz por um pequeno período também.

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Fábio: Se não fosse a Dança ou a Música, o caminho a seguir seria o da Sociologia?

Fernanda: Fiz vestibular pra Arquitetura, pois desenhava direitinho, e cursei a UFRJ por 6 meses. Depois, como gostava de política, resolvi cursar Sociologia na PUC. Logo de cara, consegui um estágio no IPHAN, coordenado por arquitetos, sociólogos e antropólogos. Meu trabalho era subir as favelas ao lado deles e lhes dar assistência. Isso foi 1980/81. Minha música tem a ver com a minha história de vida.

Fábio: Apesar de não ser mais uma bailarina, é claro que a dança permanece em você. Isso fica nítido nos seus clipes e performances ao vivo. O vídeo de “Jorge de Capadócia”, por exemplo (do seu segundo álbum, “SLA 2: Be Sample”), é pura dança contemporânea. Você acha que a bailarina ajudou a construir a cantora? A vivência intensa com a dança garante, de alguma maneira, o seu desempenho no palco?

Fernanda: Sem a menor dúvida! Quando a dança faz parte da formação da gente, tudo fica mais fácil. O domínio do corpo, do gesto, tudo! Sou uma cantora que dança. Só não sou mais uma bailarina que canta, pois a dança exige pelo menos 6 horas diárias de trabalho e já não tenho tempo pra isso.

Fábio: De todos os espetáculos de dança que eu vi até hoje, dois, brasileiros, me marcaram profundamente pela enorme força expressiva que apresentavam: o solo Like An Idiot (2002), da Cristina Moura, e Divíduo (1998), da Quasar Cia. de Dança. Tem algum artista ou companhia (brasileira ou estrangeira) que você admira e tenta ver sempre que possível?

Fernanda: Pina Bausch, Twyla Tharp, La La La Human Steps, Ballet Kirov, Ópera de Paris, Maurice Béjart e, claro, a companhia da minha “irmã” Deborah Colker, foram referências pra mim. Cheguei a ensaiar o “Desfile”, daquele primeiro espetáculo de Debinha, mas não tive tempo pra seguir. Ultimamente, não tenho conseguido acompanhar todas as novidades… 

Fábio: Falando sobre o disco novo, de que trata Amor Geral?

Fernanda: Amor Geral é um álbum fortemente autobiográfico, onde o tema é o amor. Centrado não em mim, mas no outro. O outro como ponto de partida e o amor como ponto de chegada. Afinal, são as pessoas que nos fazem sentir vivos e amados (ou desamados). É um disco sobre a vida, onde o amor, que parece um tema banal, se afirma como a força fundamental que não deixa esmorecer a nossa fome de viver.

Fábio: Como aconteceu a contribuição coreográfica da Dani Lima no clipe do single “Outro Sim”?

Fernanda: A Debinha estava muito, muito ocupada. O clipe precisava ser feito em 20 dias! Chamei a Dani e fico feliz que ela tenha podido fazer! Sempre gostei muito do trabalho dela, que conheço desde a década de 80. Fizemos muitas aulas juntas. Afinal, todo mundo de dança se conhece, né? Dani tem muita sensibilidade e sabe tirar o melhor de cada bailarino, respeitando sua linguagem individual. Eu queria isso no clipe. Não queria uma coreografia de grupo com todo mundo dançando a mesma coreografia e tentando parecer um corpo de baile. Queria a dança de cada dançarino, a riqueza que cada um tem pra me dar e pra apresentar ao público através do clipe. A Dani foi ótima!

Fábio: Você participou de dois grupos ícones da cultura carioca nos anos 1980: na dança, como bailarina do Coringa, e na música, como uma das vocalistas da Blitz. Nessa época o Rio já era uma “cidade maravilha purgatório da beleza e do caos”como hoje?

Fernanda: Acho que o Rio sempre teve essa vocação da cidade maravilhosa, charmosa, sedutora, mas é também muito desigual e cheia de contrastes. Talvez seja nesse paradoxo que sua persona tenha sido construída desde a vinda da corte portuguesa, passando por ser a capital do Brasil. Acho que a música “Rio 40 Graus” será sempre a expressão máxima dessa cidade!

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