Início » Notícias » eixo do fora #17: dia-a-dia, dança e “Seu Bem”

eixo do fora #17: dia-a-dia, dança e “Seu Bem”

eixo do fora #17: dia-a-dia, dança e “Seu Bem” [*], por Dally Schwarz

O lançamento virtual do clipe da música Seu Bem, da cantora Luciane Dom, aconteceu em 27/abr deste ano. Desde então, o vídeo tem feito muito sucesso, com grande número de acessos. Curiosa sobre seu trabalho e o motivo da escolha pela dança contemporânea, contactei a artista para uma conversa mediada por videoclipes.

Luciane nasceu em ​Paraíba do Sul, interior do estado do Rio de Janeiro, e mora no Rio desde 2009. Sua biografia inclui premiações e parcerias renomadas no cenário da música. Ela também faz parte dos projetos ​Consciência Tranquila e baile Tchotchomeri.

Dally Schwarz: Por que fazer um clipe com dança?

Luciane Dom: Quando mostrei a música que eu tinha acabado de compor, Elton Luz (diretor) falou: “olha, vamos fazer um clipe desta música e este clipe vai ter dança!”. Tanto eu quanto ele percebemos que além da letra e melodia que a canção trazia, seria ideal compor todo este diálogo através da dança contemporânea. Assim que começamos a pesquisar sobre o conceito e os movimentos dos corpos, fiquei bastante empolgada: o casamento destas artes foi bastante sensível à ideia que eu queria passar na música.

Dally: O que você entende como uma dança contemporânea? O que é importante na sua visão para a dança na contemporaneidade?

Luciane: Entendo a dança contemporânea como sendo algo que transmite o cotidiano, o dia-a-dia, e que mescla várias linguagens de dança. Diferente de outros estilos de dança, sinto mais liberdade na dança contemporânea, e uma sensação de proximidade com quem se apresenta. No caso do clipe, eu me emocionei com a performance justamente por perceber que alguns movimentos que os bailarinos usaram na dança são movimentos que no dia-a-dia usamos. Fizeram poesia de movimentos tão corriqueiros e que às vezes não prestamos atenção. Neste tipo de dança tem bastante poesia, mas também muita crítica de cotidiano.

Dally: Como foi o contato com Dilo Paulo e Silvia Patrícia, entre vocês três?

Luciane: Conheci Silvia Patrícia assim que entrei na UERJ e me encantei com sua pessoa. Desde cedo houve identificação, ela é muito forte e talentosa. O Dilo Paulo eu conheci quando trabalhei em um musical. Ele era uma das atrações da noite e quando o vi dançar, fiquei arrepiada: seu corpo parecia não ter limites. Quando Elton pediu para eu chamar um casal de bailarinos, pensei imediatamente nos dois. Fui muito feliz na escolha. Nosso contato foi muito positivo, já que éramos próximos.

Dally: Existe uma história nessa dança? Como foi feito esse trabalho em parceria com os bailarinos: a sua música e a dança deles?

Luciane: Sim, existe. Esta música é baseada na história de uma amiga que eu tinha… Ela vivia um relacionamento destrutivo, vira e mexe eu via marcas de agressão em seu corpo. Além disso, ela tinha um filho pequeno que observava toda a situação. Quando falei sobre minha inspiração para compor esta música, Elton pensou em trabalhar esta história através da dança contemporânea e da rotina deste casal. Eu também tinha conversado com Silvia e Dilo sobre a história da música e mandei a gravação… cada um foi pensando em casa sobre o que eu havia dito. Não tivemos ensaio prévio, foi um trabalho de formiguinha. Dividi as tarefas e pronto. O Elton Luz disse do Canadá: “Lu, vamos fazer este clipe, chego no Brasil em um mês “, então tive que dividir as tarefas e confiar que cada um ia fazer sua parte. Deu tudo certo… fotografia, cenário, os bailarinos criando a cena e a dança, o Elton Luz e o Jonatas Goulart (assistente de direção) conhecendo a casa e pensando como seria a filmagem, e como criariam o roteiro dentro do tempo. Foi a tarefa mais difícil que já fiz na minha vida e foi a mais gratificante! Convidei bailarinos negros porque quando vejo clipes brasileiros, dificilmente os protagonistas são negros. Para mim, isto é representatividade e valorização étnica. Quis trabalhar também com o fato desse casal morar nesta mansão, o que desloca o olhar sobre o negro. Sabemos que a pobreza e questões de cor andam juntas neste país, mas é fundamental mudar esta realidade, além de positivar a imagem sobre os negros. É importante construir outras narrativas sobre nossa história.

Leia mais:  "Falas e escritas para/sobre dança": Semana ctrl+alt+dança se encerra com mesa-redonda

Na sequência, eis os clipes que selecionei pensando um pouco a partir de Seu Bem. O jogo propõe que, motivada pelos clipes e temas,​ Luciane possa falar sobre seu trabalho de uma forma mais aberta.

>> Sobre dança a dois

“O que se conecta com Seu Bem são os bailarinos negros, este jogo de troca de roupas e os toques entre eles. Quando roteirizamos o clipe, eu chamei dois bailarinos negros pra empoderamento mesmo! Isso é representatividade, e dialoga com meu próximo CD chamado Liberte esse Banzo. Estamos no tempo de valorização étnica: que todas as belezas e identidades sejam valorizadas na mesma proporção.”

>> Sobre moda e estética

“Nossa, me identifiquei com o clipe da Solange em vários sentidos. Esse tom de laranja do terninho dela, a paleta de cores… Eu fiquei pensando quase uma semana na cor da minha roupa para o clipe, algo que ficasse bom pro meu tom de pele – fiquei em dúvida entre laranja e amarelo. Ahh, reparei uma coisa em comum com o clipe dela: em Seu Bem, os músicos não olham para a câmera, apenas eu e os bailarinos (eu olho porque estou contando a história, eles olham porque estão vivendo a história). No clipe de Solange, reparei que apenas ela olha pra câmera, principalmente na hora que estão todos dentro do carro. Adorei!”

>> Sobre espaço e atitude

“O plano sequência é um dos clipes mais difíceis de fazer, principalmente porque não tem cortes… Significa: ninguém pode errar e isso é quase impossível. Como não tivemos ensaio, ficamos algumas horas na casa para passar o roteiro, fizemos vários takes que, no final, falávamos: ‘nossa, esse foi o melhor’, mas aí quando íamos ver, tinha algum erro no meio da filmagem que impossibilitava de prosseguir… Foram vários takes até acertar. Acho que para um primeiro trabalho, já comecei com atitude e ousadia. Achei que este clipe dialoga com o meu porque é um plano sequência, ressalta as escadas, banheiro, sala, o casal, a rotina diária.”

>> Sobre propostas autorais e diferentes linguagens

“Como artista independente do cenário da música autoral, penso que conceito é fundamental pra dar start no trabalho, além de fazer algo que chame a atenção das pessoas. Gravei um samba-canção lento e um clipe em plano sequência, acredito que isso faz parte de uma nova linguagem. Karla da Silva também traz conceito em seu trabalho tão poético e sensível.”

>> Sobre danças “fora da caixinha”

“Para renovar o circuito da dança e da música, é preciso criar, senão as coisas ficam na mesma… Tô cansada de ver as mesmas coisas, principalmente em clipes de música romântica.”

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally Schwarz para ctrl+alt+dança.

 

Comentários