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eixo do fora #18: Deu aloka!

Iniciativas pessoais, circuitos “alternativos”, artistas independentes, legitimações de mercados e instituições: tudo isso vira assunto nesta postagem que traz ao debate o trabalho de Tiago Amate, idealizador de Aloka das Américas.

eixo do fora #18: Deu aloka! [*], por Dally Schwarz

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Tiago Amate / foto: Luana Farias

O canal Aloka das Américas é uma criação de Tiago Amate, cineasta e dançarino, que nasceu no Maranhão, passou por Brasília e Rio de Janeiro, e atualmente está cursando o mestrado em Dança na Bahia. O canal divulga suas experimentações pessoais de dança no espaço público e seus interesses nos deslocamentos possíveis entre palco, rua e web, difusão de conteúdo, relações entre dança e vídeo, e tudo que isso junto e misturado pode trazer como discussão para além da arte.

Outro aspecto interessante do canal é que Tiago também levanta o debate sobre técnica, virtuosismo e o “saber dançar”. Seu interesse é afirmar que todo corpo dança e que Aloka é também um convite do corpo no espaço urbano ao movimento e à existência não-normalizada.

Sua dança, como ele conta, vem de festas, performances, conversas, e de uma relação intuitiva com o movimento:

Meu trabalho não possui ambições midiáticas e espetaculares, a não ser a própria força de existir e me dar prazer. As ambições são políticas, cotidianas e esteticamente viáveis dentro das minhas condições de produção. Aloka das Américas é um manifesto do meu corpo, que dança pelos corpos que querem extravasar na rua a qualquer momento.
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foto: Luana Farias

Tiago traz referências de Vera Mantero – que dançou um discurso do filósofo francês Gilles Deleuze – a instalação de Marina Guzzo, 100 Lugares Para Dançar, o projeto de vídeo Une Minute de Danse Par Jour, de Nadia Vadori-Gauthier, e afirma que todo o seu processo de construção teve muita relação com suas descobertas incentivadas por um grupo de Facebook criado por estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF), além do seu contato com residências e oficinas em festivais cariocas como Panorama e Dança em Foco:

a instalação de Marina Guzzo, chamada 100 lugares para dançar, que também é um projeto de videodança na web, me sensibilizou ao se encontrar com a estética que já punha em minhas performances para o canal Aloka. Marina também problematiza corpos arbitrários em situações urbanas arbitrárias. Um projeto político de buscar sentidos através do movimento e de ressignificar as relações com a urbe e a coletividade.

Quando fala sobre o nome do projeto, Tiago responde que ele problematiza um lugar frágil, friccionando o estereótipo da loucura no espaço público e as formas não-habituais de mover nos lugares. Sua proposta de movimentação extra-cotidiana com novos gestos para o dia-a-dia dialoga com a dança, a poesia, e sai do lugar dos gestos funcionais ou de comunicação legível:

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Alok, sem o ‘a’, é uma expressão bastante usada na internet, que, inclusive, adotei no cotidiano para me referir a situações sobre as quais não tenho uma opinião formada, me restando rir ou chegar a conclusões absurdas. A estética do riso, do absurdo e da contemplação. Essa noção de diferença vem na forma da brincadeira, do reconhecimento da loucura cotidiana, quando corpos não se encaixam em padrões. E hoje me considero cada vez mais distante deles, como pessoa não binária (genderqueer) que ocupa a rua para dançar quando bem entende. Nesse sentido, sou Aloka que dança. E aí resolvi acrescentar o ‘a’ no Alok porque imaginei que nem todo mundo entenderia a expressão. Na verdade, ainda estou decidindo se usarei Alok ou Aloka, pois esse é apenas o início do processo. Imagino vida longa para o projeto, mas nunca se sabe, também pode acabar a qualquer momento.

Como diz o próprio Tiago, “Aloka das Américas é alguém que dança por aqui, num país da América do Sul, não dança na Europa, e que dança por corpos fora das expectativas de gênero”, levantando comentários e criando dúvidas em quem vê. “Uma mulher… Um homem? Está louco? O que ele está fazendo? Por que dança desse jeito?”. Ele conta que as pessoas costumam rir e fazer essas perguntas, pois não entendem onde ele quer chegar:

Como se sempre precisássemos chegar a algum lugar. Faz parte do choque com a normalização. Por isso, Aloka traz performances que atravessam politicamente questões marginais e dialogam com a estética de subdesenvolvimento na própria arte. Aí poderíamos pegar algumas referências do cinema marginal, experimental e do próprio cinema novo. Nomes como Rogério Sganzerla, Luiz Rosemberg, Glauber [rocha] e até o pioneirismo da maravilhosa Maya Deren, décadas antes desses caras.
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foto: Luana Farias

Quando pergunto sobre outras referências, Aloka indica “Pensar e Mover”, de Marie Bardet, mas afirma que, apesar do diálogo e embasamento acadêmico, seu projeto “é, sobretudo, um projeto do prazer que tenho em mover meu corpo pelas ruas, da catarse, das relações e das intenções de colocá-lo em xeque numa arquitetura e num plano urbanístico cada vez mais excludente e impessoal no Brasil.”

 

[*] Este texto integra a série eixo do fora, desenvolvida por Dally Schwarz para ctrl+alt+dança.

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