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Arquivo da tag: André Bern

Dança pra Cacilda – projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ) – reedita em 2012 o programa Novíssimos (Festival Panorama), que continua se propondo a abrir espaço para uma nova geração de criadores de dança contemporânea. Nesta nova edição, os artistas selecionados são: André Bern, Gabriela Alcofra, Rafaeli Mattos, Fernanda Gomes, Luisa Coser, Paula Pi, Rodrigo Rivera e Fernando Martins.

André Bern e Gabriela Alcofra, ambos colaboradores deste blog, abrem a programação com seus solos: respectivamente, Passificadora, movimento.sem.face. Os dois solos vão compor um programa único, apresentados um após o outro nos dias 1, 2 e 3/jun (sex, sáb e dom). Na sexta-feira, excepcionalmente, haverá duas sessões: uma às 15h, e outra, às 20h. No sábado, André e Gabriela se apresentam às 20h; e no domingo, às 19h. Toda a programação é gratuita.

[André Bern em Passificadora / crédito: Marina Pachecco]

Passificadora é uma performance solo de André Bern, que integra o espetáculo “Senha de Acesso” (criado em colaboração com Monica da Costa, Aluisio Flores e Fábio Honório, com supervisão de Esther Weitzman). A performance parte de um jogo com as palavras “pacificar” e o neologismo “passificar” (que remetem ao surgimento e implementação das UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio de Janeiro) para abordar questões relacionadas à ocupação e transformação do corpo enquanto território, mídia e discurso.

A pesquisa para criação do espetáculo “Senha de Acesso”, que originou esta performance, foi patrocinada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Secretaria de Estado de Cultura (SEC-RJ) – Apoio à Pesquisa e Criação Artística (Dança) 2010.

Passificadora conta com o apoio do Studio Casa de Pedra.

[Gabriela Alcofra em movimento.sem.face / crédito: Diana Sandes]

Apresentado em versão preliminar no Centro Coreográfico do Rio em março deste anomovimento.sem.face é uma parceria de Gabriela Alcofra (concepção e performance) e Camila Fersi (direção).

A pesquisa tem como cerne a contradição entre o que está revelado e o que está coberto. A imagem da utilização da burca pelas mulheres muçulmanas é referência desse choque de culturas e desejos. Dentro desse universo, a imagem de um corpo sem rosto foi revelada. O que é um corpo sem rosto?Tem identidade, tem história, tem força? O trabalho tem esse desafio: pesquisar no corpo essas imagens, elaborando uma dramaturgia para um corpo sem rosto.

movimento.sem.face conta com o apoio da Angel Vianna Escola e Faculdade, e Perffil Escola de Dança.

Para quem quiser conferir a programação dos Novíssimos, o Teatro Cacilda Becker fica na Rua do Catete, 338 (próximo ao metrô Largo do Machado) – Rio de Janeiro.

[Fernando Klipel, Alice Ripoll e os bailarinos da Cia. R.E.C. / foto: divulgação]

Uma das coreógrafas contempladas com o FADA 2011 – Fundo de Apoio à Dança (SMC-RJ) – Alice Ripoll realizou uma circulação de dois espetáculos no Rio de Janeiro. Que as saídas sejam múltiplas, em parceria com Fernando Klipel, e Cornaca, com a Cia. R.E.C. (Reação em Cadeia) foram apresentados num programa duplo e integrado, sem intervalos.

André Bern, colaborador deste blog, conferiu uma das apresentações da circulação (no Centro Coreográfico do Rio de Janeiro) e propôs a Alice uma breve entrevista via e-mail. A troca de mensagens entre os dois está embaixo, na íntegra. Monica da Costa, outra colaboradora do ctrl+alt+dança, também participou, sugerindo tópicos a serem abordados na conversa.

André Bern – O que está em jogo quando você decide apresentar os dois trabalhos um após o outro, sem intervalo, num programa único?

Alice Ripoll – Acredito que os dois trabalhos juntos estabelecem um diálogo, tanto na linguagem de movimento quanto na temática. Em cada um podemos perceber a contribuição das diferentes parcerias, de direção e interpretação. Achamos que o intervalo não seria necessário, a transição de um trabalho para o outro se dá de uma forma natural.

AB – Fale mais sobre esse diálogo tanto em termos de linguagem de movimento quanto de temática.

AR – Quando começamos a criar o “Cornaca” estávamos finalizando o processo do “Que as saídas…”, no qual a Juliana [Medella] também participou, como ensaiadora. Inclusive, a primeira vez que fizemos o trabalho fora da sala de ensaio foi uma apresentação pros meninos do R.E.C., que na época eram alunos da Juliana no PróSaber [ONG]. Eles foram as primeiras pessoas que viram. Então, a pesquisa de movimento – de contato, encaixes corporais -  estava muito viva em nós, diretoras, na época da criação do “Cornaca”. E cada corpo responde de formas muito diferentes a este tipo de trabalho; aí entra a identidade de cada trabalho. Por exemplo, tem um duo no “Cornaca” em que dois bailarinos pesquisam, através do contato, a linguagem do “King Tut”, que é uma técnica dentro do hip hop. E no que diz respeito a temática, o contato acaba remetendo às relações humanas, que são exploradas de forma diferente em cada trabalho, mas estão presente nos dois.

AB – Como “Que as saídas…” tem se desenhado a partir de cada apresentação, de cada plateia? Que mudanças, alterações, transformações, o trabalho vem incorporando ao longo de sua trajetória? A parceria com Fernando Klipel produziu outros desdobramentos além deste trabalho?

AR – Bom, vou responder de acordo com a minha percepção. Talvez o meu parceiro Fernando Klipel pense diferente. Eu não observo uma grande interferência da platéia neste trabalho, pois ele acontece dentro de um universo de profunda conexão entre nós, os intérpretes. O trabalho se desenvolve exatamente neste ponto, uma vez que absolutamente todos os movimentos se dão através do contato: em cada passo, cada gesto, dependemos um do outro, construímos tudo juntos. Então no momento da cena, essa parceria é o que mais se faz notar para mim. O trabalho não sofreu nenhuma grande alteração desde que foi criado. O que transforma é o fato de a cada repetição nossos corpos estarem mais “conhecidos”, e isso influencia o fluxo e nos proporciona liberdade para brincar com velocidades, pequenas surpresas e sensações novas. A nossa parceria ainda não produziu outros desdobramentos.

AB – Você diz que a cada repetição seus corpos se tornam mais “conhecidos”. Em que medida isso também poderia funcionar “contra” o trabalho?

AR – O fato da intimidade entre os corpos aumentar, a meu ver, só contribui neste trabalho. Mas existe um mistério em torno da repetição; acho que todos que trabalham com dança já passaram por isso. Às vezes ficamos um tempo sem ensaiar o trabalho, e de primeira ele sai maravilhoso. Outras vezes precisamos repetir exaustivamente para que esta sintonia apareça. Porque essa sintonia se dá também em outros níveis de conexão, mais sutis, que estão fora do nosso controle.

AB – Como aconteceu o encontro com os bailarinos de “Cornaca”? O que os leva (você, Juliana Medella e eles) a assinar como Cia. R.E.C. (Reação em Cadeia)?

AR – Tudo começou há uns cinco anos, quando a Juliana Medella foi convidada pelo Instituto PróSaber a dar aulas de dança contemporânea para uma turma de jovens. Depois, a convite da Juliana, eu entrei no projeto para dar aulas de videodança. Em 2009, nos desvinculamos da ONG e nos tornamos um grupo independente – R.E.C. – e criamos o trabalho “Cornaca”.

AB – Como vocês se organizam internamente enquanto companhia? Como lidam com as possíveis hierarquias: de quem cria, executa, assina? Como dialogam as diferentes formações, expressões e genealogias: a dança de rua e a dança acadêmica, a Zona Sul e o subúrbio, a afro-descendência e a euro-descendência? Que estranhamentos tensões e fertilidades emergem?

AR – No caso da criação do trabalho “Cornaca”, eu e a Juliana fazíamos proposições de improvisos e os bailarinos criavam a movimentação. Depois nós íamos limpando as cenas, selecionando, etc. As decisões sobre a maneira de funcionar do grupo (como quantidade de ensaios, as apresentações que fazemos) têm sido tomadas coletivamente. As diferentes formações contribuem para que o nosso encontro seja bem criativo; inclusive, um dos nossos desejos para o próximo trabalho é justamente se aprofundar nas qualidades de movimento e interesses específicos de cada um, uma vez que o “Cornaca” foi um processo construído muito em cima do grupo, isto é, do que podemos fazer juntos. Acredito que qualquer diferença sempre tem a somar, fazer com que a gente conheça novas pessoas, novos estilos de dança, novos lugares.

AB – O que o encontro com cada contexto, com Fernando Klipel e com os bailarinos da Cia. R.E.C., promove? Como a sua dança contemporânea se constrói a partir desses encaixes, parcerias?

AR – Os dois encontros são parcerias muito importantes pra mim, onde eu me desenvolvo e experimento possibilidades criativas. São uma grande fonte de aprendizagem. No encontro com o Fernando, a criação fluiu de uma forma muito leve. Nós tivemos um entendimento corporal imediato e a linguagem do trabalho foi se desenvolvendo espontaneamente. Foi e ainda é um encontro onde sigo me desenvolvendo como intérprete, e juntos vamos descobrindo novas maneiras de estar em cena. Com os bailarinos do R.E.C. exercito constantemente o meu olhar de fora, de como perceber e instigar em cada um as suas possibilidades expressivas e de se movimentar. Como estamos em constante transformação, e estamos atentos a isso, este trabalho não acaba nunca.

Para quem ainda não conferiu os espetáculos, aí vai uma dica: o programa duplo integrará a ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ) – Dança pra Cacilda – e será apresentado entre 18-20/mai e 25-27/mai.

[Rob List em Folly / fonte: nucleododirceu.com.br]

ctrl+alt+dança dá prosseguimento à parceria com o blog de Rob List, Mirror to the Flower, e apresenta uma nova tradução de André Bern. Desta vez, publicamos “Uma Prática”, texto postado por Rob em jan/2011, que estende a discussão proposta anteriormente em “Valor de Mercado” – o primeiro da série de textos traduzidos por André. Confiram!

UMA PRÁTICA, por Rob List

(Tradução de André Bern)

[para ler o texto original em inglês, clique aqui]

Quando pensamos sobre arte como prática, mais do que como carreira, o que queremos dizer com “prática” e qual é a relevância disso?

A palavra prática poderia ser um verbo ou um substantivo. Como verbo, prática se refere a uma atividade repetida deliberadamente. Por exemplo, treinar para adquirir habilidades ou conhecimentos, ou ensaiar para preparar uma performance. A raiz grega do verbo significa “alcançar, realizar” e geralmente pensamos sobre prática assim, focada em objetivos.

Por outro lado, o substantivo prática não é apenas uma descrição de um meio para atingir um fim. Ainda que tenhamos a tendência de correlacionar prática a teoria num tipo de relação causa-efeito, literalmente, a raiz grega praxis indica uma atividade humana sem forma ou objetivo definidos. Aristóteles fez considerações acerca deste tópico em seus escritos sobre ética:

A atividade teórica [theorea] é a busca da verdade através da contemplação. A atividade produtiva [poeisis] pode ser definida como aquela envolvida em fazer algo, como um artefato, que começa com um plano original ou forma e, então, é trabalhado utilizando várias habilidades. A atividade prática [praxis] não começa com certo plano ou teoria, mas sim com um problema ou situação. A prática é um processo contínuo de testagem e examinação, uma sintonia entre meios e fins, assim como entre pensamentos e ações. O objeto é, afinal, aquele mesmo que realiza a tarefa, e sua abordagem ao realizá-la, considerados num enquadramento a longo prazo.

Na praxis não há nenhum conhecimento prévio em termos do meio mais adequado para atingir um objetivo. Através do canal de uma expressão artística, cada projeto é parte de uma pesquisa em progresso sobre atitudes pessoais, princípios e métodos. É uma forma de aprendizado pela experiência, um processo de criação de significado a partir da experiência direta. Uma maneira de examinar a si mesmo através de ações, não necessariamente palavras; um caminho na direção de “insights”, percepções, mais válido que um contracheque ou crítica especializada.

Se levamos a sério, fazer arte torna-se uma contínua prática em progresso – exatamente como o direito e a medicina também são práticas – uma tentativa ao longo de toda uma vida em busca do desenvolvimento de si mesmo através do canal de seu trabalho. É um processo estimulante, às vezes cruel, com consequências imprevisíveis.

De resto, sempre dá para pagar as contas no nosso tempo livre.

Na sequência da mesa-redonda realizada em torno da pergunta “Como fazemos?”, André Bern compartilha suas impressões acerca do segundo encontro realizado no Centro Coreográfico do Rio em 9/fev. Dessa vez, “Por onde circulamos?” foi a pergunta que guiou os presentes (confira um trecho da conversa no vídeo acima).

EU CIRCULO PARA SOBREVIVER OU A DANÇA PERTO DO OUTRO: UM RELATO-APERITIVO? por André Bern

Alimentado.

Faço questão de iniciar esse relato com um indicativo de como me senti ao sair da mesa do dia 9 de fevereiro. Acredito ser importante e em consonância com todos os que puderam estar presentes, convidados e plateia, numa noite em que a palavra “afeto” foi citada inúmeras vezes. E se não foram tantas assim, peço perdão pela licença poética.

Sim, como já deu para perceber, esse texto não fingirá ser imparcial ou linear. Nem por isso deixarei de propor algumas considerações acerca do que ouvi e senti. Então, eis o exercício: relatar a partir de um território subjetivo (e dá pra ser de outra maneira?) e deixar brotar questões advindas da experiência (não menos subjetiva) de ouvir Rodrigo, Carla, Dyonne, Denise e a plateia onde eu estava.

Depois de uma breve apresentação de cada um dos convidados (no esquema “eles por eles mesmos”), que nos deu a oportunidade de saber de onde, de que territórios estes vêm e, portanto, de que lugares falam – algo fundamental para uma mesa que se organiza em torno da pergunta “Por onde circulamos?” – surgiu um primeiro questionamento sobre o fio que aproximava os integrantes da mesa. “É uma mesa social?”, alguém deixou escapar, provavelmente por causa dos trabalhos de Rodrigo Maia e Carla Strachmann, respectivamente, com os projetos Fronteiras e Entrando na Dança. Dyonne Boy, mediadora da mesa, rapidamente se opôs ao rótulo, explicando que lhe interessava partir da ideia central da mesa, a de circulação, e do encontro e relação com o outro que tal circulação pode promover.

É fato que afirmar uma proposta enquanto projeto social necessariamente gera divergências e, inclusive, muitos profissionais da dança vão “torcer o nariz”. Chega rapida e, muitas vezes superficialmente, a conclusão de que projetos sociais abdicam de um certo cuidado essencial com questões estéticas e artísticas em prol da dita formação de plateia ou cidadã. Rodrigo defende uma ideia de complementaridade entre os âmbitos social e artístico/criativo. Um território onde técnica e afeto são, de antemão, co-existentes. Nesse sentido, Denise Stutz acredita ser possível informar, não formar. “Eu fui formada pelo mundo”, numa relação de comunicação e troca com o outro, os tantos artistas que “passaram pelo meu corpo”, a senhora da plateia de Vila Kennedy com quem realizou um duo num de seus espetáculos…

Este não seria o único momento mais pedregoso da noite, que apenas começava. A diversidade de percursos dos profissionais que compunham a mesa e a presença de uma plateia bastante participativa funcionaram como combustível para que a conversa se estendesse animada por mais de duas horas.

Ainda durante sua apresentação, Denise colocou em pauta a inevitável pergunta, talvez anterior à que alimentava a própria mesa, “Por que circulo?”. Na experiência da bailarina (de vários presentes na plateia e, acredito, dos leitores desse texto também), ela circula para sobreviver artistica e financeiramente, o que nos remete ao fato de que muitas vezes trabalhamos para poder manter-nos produzindo como criadores; sem contar os compromissos financeiros inerentes a qualquer indivíduo, independentemente de sua profissão. Denise entremeia experiências profissionais e pessoais num discurso extremamente articulado e honesto. Fala, por exemplo, de como a parceria com Felipe Ribeiro (presente na plateia) tem sido frutífera e inspiradora para ela. Foi um dos momentos que mais me emocionaram, dado que raramente vemos artistas da dança expressarem tão veementemente sua gratidão pela contribuição dos parceiros.

Nesse sentido, é importante dizer que a circulação de artistas também frutifica na forma de parcerias. É circulando que artistas se encontram, inspiram movimentos, eventos e pessoas. Como no caso de Dyonne, cuja circulação do Jongo da Serrinha pela cidade do Rio de Janeiro promoveu seu encontro com Mestre Darcy, músico fundador do grupo. Um encontro que, para ela, fez com que um novo Rio de Janeiro se descortinasse. “Para mim, a Serrinha não é um lugar social nem de folclore. É um lugar de gente inventando processos econômicos, artísticos (…) Não foi uma ONG que criou um grupo; pelo contrário, esse grupo gerou uma ONG, uma escola”.

“A gente é construído pelos lugares onde circulamos”, frase de Denise, parece servir de “deixa” para que Dyonne, minutos mais tarde, perguntasse a Carla sobre como se dá a aproximação com quem não costuma ver dança no contexto do Entrando na Dança. Entre exemplos de pessoas que vão assistir os espetáculos porque viram uma chamada na TV, Carla fala de experiências que foram marcantes na trajetória dela à frente do projeto, braço do Festival Panorama, que leva apresentações de companhias cariocas de dança contemporânea a diversos espaços do subúrbio da cidade. Experiências como a de uma senhora que não parava de chorar e dizer “Isso me lembra Nietzsche!” após assistir a uma apresentação da bailarina Paula Maracajá numa prisão.

Carla ainda reflete sobre o que para ela é um equívoco: a mera distribuição de ingressos gratuitos como estratégia de formação de plateia (olha ela aí outra vez!). Segundo ela, o mais importante é promover o acesso cada vez mais amplo da população à dança. Se as pessoas vão gostar ou não dos espetáculos, é outro assunto.

Carla admite que a equipe do Entrando na Dança equilibra cautelosamente espetáculos “mais hardcore” e aqueles cuja estética se revela mais acessível ao grande público. A ideia é não afastar em definitivo o público com uma apresentação a que ele supostamente não estaria preparado para assistir.

Ainda que compreenda o fluxo de raciocínio apresentado por Carla, cuja mais nobre motivação é arregimentar públicos maiores às apresentações de dança contemporânea da cidade, me faço algumas perguntas: como podemos definir o que este ou aquele público está preparado para ver? Ou melhor: que outras estratégias (que não necessariamente a distribuição massiva de ingressos gratuitos ou a pré-seleção de espetáculos mais ou menos “difíceis” para este ou aquele público) podem ser elencadas pelos programadores/curadores quando o que está em pauta é aproximar-se do público não frequentador de dança contemporânea? Será que, na outra ponta da engrenagem, os criadores de dança precisam ser menos auto-indulgentes (como sugere alguém da plateia) e pensar mais (ainda mais) no público que vai assistir seus espetáculos? E, talvez mais importante, o que significa esse “pensar mais no público”? Atender suas demandas e necessariamente ceder aos modismos?

E olha que nem cheguei à discussão sobre os editais, os quase-sempre-demonizados-editais, e já estourei meu limite de páginas para o relato!

Enfim, espero que este texto sirva de aperitivo para aqueles que passarão a frequentar as próximas mesas, e de sobremesa para quem já foi às duas primeiras. Que a cozinha se mantenha produtiva e fumegante!

Aos próximos pratos e menus!

Um forte abraço,

André Bern

[fachada do Centro Coreográfico do Rio / crédito da foto: Diogo Oliveira]

Depois da noite dedicada a discutir modos de fazer/produzir em dança, o ciclo de encontros idealizado por Flávia Meireles e promovido pelo Centro Coreográfico do Rio de Janeiro segue com nova proposição: “Por onde circulamos?”

Para a discussão (do dia 9/fev, próxima quinta-feira, às 19h) foram convidados Carla Strachmann (Entrando na Dança), Rodrigo Maia (Fronteras) e a bailarina Denise Stutz. Dyonne Boy fará a mediação da mesa, que contará com André Bern como relator crítico da noite.

O Centro Coreográfico do Rio fica na Rua José Higino, 115 – Tijuca (ao lado do supermercado Extra).

[Rob List em Natura Morta / crédito da foto: Andrea Mohin / The New York Times]

Em parceria com outro blog, Mirror to the Flower, do coreógrafo e performer norte-americano Rob List, o ctrl+alt+dança passa a publicar traduções de alguns textos postados pelo artista. As traduções ficam por conta de André Bern, colaborador deste blog, que conheceu Rob em 2009, durante o programa de intercâmbio coLABoratório (promovido pelo Festival Panorama).

Para marcar o início dessa parceria, publicamos abaixo “Valor de mercado”, texto postado por Rob List em dez/2010, que certamente ainda contém elementos pulsantes e provocadores de discussões e reflexões. Confiram!

VALOR DE MERCADO, por Rob List

(Tradução de André Bern)

[para ler o texto original em inglês, clique aqui]

É óbvio que as artes performativas – assim como o esporte, a moda, e tudo mais – estão se tornando cada vez mais profissionais, em outras palavras, comerciais. Em toda parte, até nos ditos circuitos alternativos, um grande esforço tem sido feito com o objetivo de propagar o modelo comercial contemporâneo: desenvolver marca, plataforma e imagem, situar-se como produto em algum lugar da vasta paisagem virtual, e acima de tudo: “network” ou “trabalhar em rede”. Afinal de contas, o modelo comercial trata basicamente de uma questão de posicionamento. Onde estou em relação aos meus colegas, e o que posso fazer para ser visto ou ouvido no mercado?

“Empresários de Empreitadas Culturais são agentes de mudança cultural, visionários hábeis que geram receita a partir de uma atividade cultural. Suas soluções inovadoras resultam em empreitadas culturais economicamente sustentáveis que melhoram os meios de vida e geram valor cultural tanto para os produtores como para os consumidores de serviços e produtos culturais.”

Esta relação empresarial entre produtor e consumidor significa, inevitavelmente, que o consumidor se torna o grande árbitro do sucesso; e que, num mundo empresarial, sucesso não está necessariamente atrelado a mérito artístico. Na verdade, praticamente não está. O sucesso está mais ligado à venda agressiva, aos cálculos. Por exemplo, uma estratégia infalível para o dito artista de vanguarda continua sendo a velha ideia de provocação. Podemos ver isso hoje em dia não só nas artes, mas também no esporte, na moda e até na política. Aperte um botão e tenha uma reação; gere um incômodo e tenha uma reação ainda maior.

O que fazemos parece não ser tão importante a ponto de se encontrar um comprador para tal, ou no caso das artes performativas, encontrar um produtor e um público. Infelizmente, com a enorme explosão de artistas de todos os tipos nos últimos trinta anos, tudo se resume a um mercado de compradores em toda parte. Na Holanda, onde moro, o conceito de apoio governamental às artes mudou: de sua origem no pós-guerra enquanto patrocinador das artes independente da opinião pública, às ações mais recentes que se utilizam das artes como ferramenta política, e ultimamente, ao patrocínio exclusivo apenas às artes que se revelem as mais populares no mercado. A implicação reside no fato de que agora o patrocínio deve incentivar e premiar o comercialismo, que gera como consequência o desaparecimento da arte que não tem valor comercial. Para o artista, isso significa adaptar-se ao modelo empresarial e desenvolver uma mentalidade carreirista, ou correr o risco de se isolar e permanecer na obscuridade ao manter-se fiel à sua visão artística independente dos desejos do mercado.

Some-se a isso um quebra-cabeça maior, o do dito padrão artístico na sociedade contemporânea. O que é arte de boa ou má qualidade, e esses termos ainda importam? A relevância de um trabalho é determinada pelo público, pela mídia ou pelas forças do mercado? Como é possível superar a lamentável situação em que parecemos estar, na qual tanto o artista quanto o público estão cada vez mais conscientes da natureza possivelmente arbitrária no tocante a decisões estéticas, e do papel da mídia em perpetuar tradições, sejam mais recentes ou antigas?

Para que se faz arte? Para pagar as contas? Precisamos nos perguntar seriamente sobre nossos motivos e expectativas para, no mínimo, não acabar malsucedidos, envelhecidos e amargos. Como um artista, seja de que linguagem for, pode criar trabalhos de forma independente?

Talvez as palavras “bom” e “ruim” precisem de redefinições. A singularidade dos produtos artísticos, em suas diversas formas, já é, em si, uma qualidade especial nesta realidade empacotada em que vivemos agora. Talvez a relevância da arte seja uma questão mais pessoal do que pública. Pessoal no que se refere ao artista, ao espectador individual. E talvez não gere nenhuma receita.

Caso não gere, talvez seja importante descobrir o que há de enriquecedor em ser um artista a longo prazo, e não necessariamente mensurá-lo a partir dos padrões dos outros ou de nosso contra-cheque. Devemos pensar que temos uma prática, mais do que uma carreira. Uma prática que aprofunda o trabalho, e a pessoa que o realiza também. Isso pode não ser uma proposição economicamente viável, mas tem potencial de ser muito mais gratificante do que dinheiro. Ainda que seja difícil de encontrar, pergunte a qualquer artista “morto-de-fome” – depois de convidá-lo para jantar, é claro!

Talvez não vivamos mais os dias dos heróis originais e solitários, mas isso não significa que eles não possam servir como um exemplo a partir do qual possamos redefinir, ajustar e refletir sobre os nossos tempos.

[Aline Oliveira, André Bern, Monica da Costa e Gabriela Alcofra na Fundição Progresso (RJ)]

Depois de um convite super casual via e-mail, a equipe carioca do blog (faltou nossa querida colaboradora baiana Iara Cerqueira) foi à Fundição Progresso gravar uma entrevista para a TV Brasil. Além de uma conversa sobre como se organiza a iniciativa no blog no dia-a-dia das postagens, cada artista/pesquisador pôde falar também sobre sua trajetória e projetos pessoais.

Vocês vão poder conferir o resultado em breve no quadro “Coletivo”, do programa Estúdio Móvel!

 

Em visita à oficina de Ana Paula Bouzas (Corpo Criativo), já anunciada aqui em outro post, André Bern conversou com a professora e bailarina e registrou imagens dos participantes da atividade. Muito simpática – e gravidíssima! – Ana falou do histórico da oficina, que já é oferecida há alguns anos em diversos formatos, e do sucesso da mesma entre atores, bailarinos e pessoas que gostam de atividades corporais criativas. A oficina, como vocês vão conferir no vídeo abaixo, já está lotada, mas vale ficar de olho na próxima turma. Ana prometeu que vai avisar à gente!

[André Bern, Aline Oliveira, Gabriela Alcofra e Monica da Costa - faltou a baiana Iara Cerqueira para completar a foto ;) ]

Hoje foi dia de encontro da equipe do blog: bate-papo sobre os próximos rumos, conversa fiada entre amigos, comemoraçãozinha de início de ano, um misto de tudo isso.

Entre as novidades e planos de postagens futuras, temos um canal de TV interessado em fazer uma entrevista conosco, Monica da Costa e sua conversa com o ícone da dança moderna Ismael Ivo, além de uma visita à oficina de Ana Paula Bouzas no Espaço SESC (RJ) já nesta semana.

Fiquem ligad@s e sempre à vontade para fazer sugestões e críticas!!!

[Bricolage, vídeo de André Bern, integrou a MIV* em 2011 / crédito da imagem: Leandro Cristóvão]

O Festival Internacional de Dança & Vídeo – Dança em Foco – já se prepara para a sua edição em 2012 com a abertura de inscrições de trabalhos para a sua Mostra Internacional de Vídeos (MIV)*. As inscrições só serão aceitas até 29/fev, através do link www.dancaemfoco.com.br/convocatoria.

Como de costume, o Festival acontecerá no segundo semestre. A primeira cidade a recebê-lo em 2012 é o Rio de Janeiro, com sessões gratuitas e abertas ao público.

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