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Dança pra Cacilda – projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ) – reedita em 2012 o programa Novíssimos (Festival Panorama), que continua se propondo a abrir espaço para uma nova geração de criadores de dança contemporânea. Nesta nova edição, os artistas selecionados são: André Bern, Gabriela Alcofra, Rafaeli Mattos, Fernanda Gomes, Luisa Coser, Paula Pi, Rodrigo Rivera e Fernando Martins.

André Bern e Gabriela Alcofra, ambos colaboradores deste blog, abrem a programação com seus solos: respectivamente, Passificadora, movimento.sem.face. Os dois solos vão compor um programa único, apresentados um após o outro nos dias 1, 2 e 3/jun (sex, sáb e dom). Na sexta-feira, excepcionalmente, haverá duas sessões: uma às 15h, e outra, às 20h. No sábado, André e Gabriela se apresentam às 20h; e no domingo, às 19h. Toda a programação é gratuita.

[André Bern em Passificadora / crédito: Marina Pachecco]

Passificadora é uma performance solo de André Bern, que integra o espetáculo “Senha de Acesso” (criado em colaboração com Monica da Costa, Aluisio Flores e Fábio Honório, com supervisão de Esther Weitzman). A performance parte de um jogo com as palavras “pacificar” e o neologismo “passificar” (que remetem ao surgimento e implementação das UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio de Janeiro) para abordar questões relacionadas à ocupação e transformação do corpo enquanto território, mídia e discurso.

A pesquisa para criação do espetáculo “Senha de Acesso”, que originou esta performance, foi patrocinada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Secretaria de Estado de Cultura (SEC-RJ) – Apoio à Pesquisa e Criação Artística (Dança) 2010.

Passificadora conta com o apoio do Studio Casa de Pedra.

[Gabriela Alcofra em movimento.sem.face / crédito: Diana Sandes]

Apresentado em versão preliminar no Centro Coreográfico do Rio em março deste anomovimento.sem.face é uma parceria de Gabriela Alcofra (concepção e performance) e Camila Fersi (direção).

A pesquisa tem como cerne a contradição entre o que está revelado e o que está coberto. A imagem da utilização da burca pelas mulheres muçulmanas é referência desse choque de culturas e desejos. Dentro desse universo, a imagem de um corpo sem rosto foi revelada. O que é um corpo sem rosto?Tem identidade, tem história, tem força? O trabalho tem esse desafio: pesquisar no corpo essas imagens, elaborando uma dramaturgia para um corpo sem rosto.

movimento.sem.face conta com o apoio da Angel Vianna Escola e Faculdade, e Perffil Escola de Dança.

Para quem quiser conferir a programação dos Novíssimos, o Teatro Cacilda Becker fica na Rua do Catete, 338 (próximo ao metrô Largo do Machado) – Rio de Janeiro.

Após ter ganho o edital de ocupação do Teatro Cacilda Becker, a Associação Cultural Panorama abre convocatória para inscrição de trabalhos de jovens artistas na mostra Novíssimos.

A mostra iniciou com o Festival Panorama em 1992, então chamado Panorama RIOARTE de Dança, lançando e apresentando diversos artistas que mais tarde se tornariam profissionais reconhecidos na dança contemporânea. Mudou de nome e passou a ser chamada Mostra Universitária, servindo como um espaço de experimentação e apresentação de jovens universitários que estavam se inserindo nesse cenário. Agora sob outro formato, a mostra volta se chamar Novíssimos e vem com o mesmo propósito: uma oportunidade para novos criadores apresentarem seus trabalhos.

O projeto ocupará o teatro de maio a agosto e serão escolhidos dois trabalhos para serem apresentados uma semana por mês, de sexta a domingo, incluindo uma sessão para estudantes. Haverá também um laboratório para conversa e intercâmbio entre esses jovens escolhidos e profissionais da dança, com discussões sobre composição coreográfica.

A convocatória se destina a estudantes e jovens profissionais que se encontram no seu primeiro ou segundo trabalho de criação. O trabalho inscrito deve ter no máximo 30 minutos. O projeto não arca com custos de viagem, caso o artista seja de outra cidade.

Para participar, envie até dia 05/abr:

Por e-mail:

- link do vídeo do trabalho proposto + dossiê de 1 página +  CV de 1 página

para: producao.cacilda@panoramafestival.com 

Por correio:

- DVD + dossiê  de 1 página + CV de 1 página

para: Rua da Lapa, 213, sobrado – Glória – Rio de Janeiro

Para maiores informações, clique aqui.

Boa sorte!

Abaixo, confiram um vídeo da Mostra Universitária de 2009:

[Rob List em Natura Morta / crédito da foto: Andrea Mohin / The New York Times]

Em parceria com outro blog, Mirror to the Flower, do coreógrafo e performer norte-americano Rob List, o ctrl+alt+dança passa a publicar traduções de alguns textos postados pelo artista. As traduções ficam por conta de André Bern, colaborador deste blog, que conheceu Rob em 2009, durante o programa de intercâmbio coLABoratório (promovido pelo Festival Panorama).

Para marcar o início dessa parceria, publicamos abaixo “Valor de mercado”, texto postado por Rob List em dez/2010, que certamente ainda contém elementos pulsantes e provocadores de discussões e reflexões. Confiram!

VALOR DE MERCADO, por Rob List

(Tradução de André Bern)

[para ler o texto original em inglês, clique aqui]

É óbvio que as artes performativas – assim como o esporte, a moda, e tudo mais – estão se tornando cada vez mais profissionais, em outras palavras, comerciais. Em toda parte, até nos ditos circuitos alternativos, um grande esforço tem sido feito com o objetivo de propagar o modelo comercial contemporâneo: desenvolver marca, plataforma e imagem, situar-se como produto em algum lugar da vasta paisagem virtual, e acima de tudo: “network” ou “trabalhar em rede”. Afinal de contas, o modelo comercial trata basicamente de uma questão de posicionamento. Onde estou em relação aos meus colegas, e o que posso fazer para ser visto ou ouvido no mercado?

“Empresários de Empreitadas Culturais são agentes de mudança cultural, visionários hábeis que geram receita a partir de uma atividade cultural. Suas soluções inovadoras resultam em empreitadas culturais economicamente sustentáveis que melhoram os meios de vida e geram valor cultural tanto para os produtores como para os consumidores de serviços e produtos culturais.”

Esta relação empresarial entre produtor e consumidor significa, inevitavelmente, que o consumidor se torna o grande árbitro do sucesso; e que, num mundo empresarial, sucesso não está necessariamente atrelado a mérito artístico. Na verdade, praticamente não está. O sucesso está mais ligado à venda agressiva, aos cálculos. Por exemplo, uma estratégia infalível para o dito artista de vanguarda continua sendo a velha ideia de provocação. Podemos ver isso hoje em dia não só nas artes, mas também no esporte, na moda e até na política. Aperte um botão e tenha uma reação; gere um incômodo e tenha uma reação ainda maior.

O que fazemos parece não ser tão importante a ponto de se encontrar um comprador para tal, ou no caso das artes performativas, encontrar um produtor e um público. Infelizmente, com a enorme explosão de artistas de todos os tipos nos últimos trinta anos, tudo se resume a um mercado de compradores em toda parte. Na Holanda, onde moro, o conceito de apoio governamental às artes mudou: de sua origem no pós-guerra enquanto patrocinador das artes independente da opinião pública, às ações mais recentes que se utilizam das artes como ferramenta política, e ultimamente, ao patrocínio exclusivo apenas às artes que se revelem as mais populares no mercado. A implicação reside no fato de que agora o patrocínio deve incentivar e premiar o comercialismo, que gera como consequência o desaparecimento da arte que não tem valor comercial. Para o artista, isso significa adaptar-se ao modelo empresarial e desenvolver uma mentalidade carreirista, ou correr o risco de se isolar e permanecer na obscuridade ao manter-se fiel à sua visão artística independente dos desejos do mercado.

Some-se a isso um quebra-cabeça maior, o do dito padrão artístico na sociedade contemporânea. O que é arte de boa ou má qualidade, e esses termos ainda importam? A relevância de um trabalho é determinada pelo público, pela mídia ou pelas forças do mercado? Como é possível superar a lamentável situação em que parecemos estar, na qual tanto o artista quanto o público estão cada vez mais conscientes da natureza possivelmente arbitrária no tocante a decisões estéticas, e do papel da mídia em perpetuar tradições, sejam mais recentes ou antigas?

Para que se faz arte? Para pagar as contas? Precisamos nos perguntar seriamente sobre nossos motivos e expectativas para, no mínimo, não acabar malsucedidos, envelhecidos e amargos. Como um artista, seja de que linguagem for, pode criar trabalhos de forma independente?

Talvez as palavras “bom” e “ruim” precisem de redefinições. A singularidade dos produtos artísticos, em suas diversas formas, já é, em si, uma qualidade especial nesta realidade empacotada em que vivemos agora. Talvez a relevância da arte seja uma questão mais pessoal do que pública. Pessoal no que se refere ao artista, ao espectador individual. E talvez não gere nenhuma receita.

Caso não gere, talvez seja importante descobrir o que há de enriquecedor em ser um artista a longo prazo, e não necessariamente mensurá-lo a partir dos padrões dos outros ou de nosso contra-cheque. Devemos pensar que temos uma prática, mais do que uma carreira. Uma prática que aprofunda o trabalho, e a pessoa que o realiza também. Isso pode não ser uma proposição economicamente viável, mas tem potencial de ser muito mais gratificante do que dinheiro. Ainda que seja difícil de encontrar, pergunte a qualquer artista “morto-de-fome” – depois de convidá-lo para jantar, é claro!

Talvez não vivamos mais os dias dos heróis originais e solitários, mas isso não significa que eles não possam servir como um exemplo a partir do qual possamos redefinir, ajustar e refletir sobre os nossos tempos.

ctrl+alt+dança tem apenas três meses de atividades, mas os acessos ao blog só aumentam a cada novo post. Abaixo, segue uma lista dos 5 mais visitados: um agradecimento ao carinho e torcida de cada um de vocês, nossos leitores-colaboradores!

1o. lugar: a última semana de sem o que você não pode viver? e a entrevista com a coreógrafa Ivana Menna Barreto!

2o. lugar: a crítica à matéria do Segundo Caderno do jornal O Globo sobre o projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ), Manifesta!, escrita por André Bern!

3o. lugar: a republicação da crítica de Gabriela Alcofra sobre Des témoins ordinaires, de Rachid Ouramdane!

4o. lugar: as estreias dos novos trabalhos de André Bern e Amalia Herrera na semana pós-Festival Panorama no Rio de Janeiro!

5o. lugar: a apresentação de Monica da Costa no seminário promovido pela especialização em Educação e Contemporaneidade do CEFET-Nova Friburgo!

[Fábio Honório, Monica da Costa, André Bern e Aluisio Flores]

Ontem, numa padaria em Botafogo, os artistas do espetáculo senha de acesso se reuniram para comemorar a concretização do projeto, e num clima de retrospectiva falaram sobre os espetáculos e performances que mais chamaram sua atenção ao longo de 2011:

Margô Assis (MG) - LIVRO (apresentado na Bienal SESC de Dança – Santos / SP) 

[crédito da foto: Eugênio P. Horta]

André Bern: “Lindo… Parece uma contação de histórias! Um belo encontro entre dança e artes visuais.”

João Rafael Neto (BA) – BOLERO DE 4 (apresentado na Bienal SESC de Dança – Santos / SP)

[fonte: salvadorpraja.com.br]

AB: “Entre dança e esporte… muito bonito! Tem a trilha, o Bolero de Ravel, a praça vira um lago… Rafael é um cisne de rodas!”

Naiá Delion (RJ) – USE O ASSENTO PARA FLUTUAR (apresentado no Espaço SESC Copacabana)

[fonte: fundacaocasagrande.org.br]

AB: “Muito peculiar… único! É uma artista nova chegando e dizendo alguma coisa… as imagens que ela constrói são muito potentes.”

Cia. GiraDança (RN) – PEQUENAS LEMBRANÇAS (apresentado no Festival Brasil Move Berlim)

[fonte: giradanca.com.br]

Monica da Costa: “Fiquei muito tocada… tinha uma cena muito sutil, que se relacionava com a experiência de um dos bailarinos. Ele foi baleado e ficou paraplégico. Era uma presença tão forte!”

Panaíbra Gabriel (Moçambique) & Boyzie Cekwana (África do Sul) – INKOMATI (DIS)CORD (apresentado no Festival Panorama)

[crédito da foto: Christian Altofer]

MC: “Eles conseguiram criar uma atmosfera ali, com questões muito delicadas, como a relação de fronteira entre os países da África. Eu destacaria a cena do “telefone sem fio”… O trabalho todo tem uma corporeidade negra muito presente, nos cantos, nos gestos…”

Taoufiq Izeddiou (Marrocos) – AALÉEF (apresentado no Festival Panorama)

[crédito da foto: Dimitri Tsiapkinis]

MC: “Uau!”

AB: “Também incluí esse na minha lista… muito interessante a maneira como ele aborda algumas questões da globalização.”

João Saldanha (RJ) – QUALQUER COISA A GENTE MUDA (apresentado no Festival Panorama)

[crédito da foto: Renato Mangolin]

Aluisio Flores: “No sentido de uma homenagem, foi um encontro super bacana. Um contraponto entre Angel Vianna e Maria Alice Poppe. Um caminho a seguir.”

João Saldanha (RJ) – NÚCLEOS (apresentado no Espaço SESC Copacabana)

[fonte: wikidanca.net]

AF: “Completamente diferente do trabalho com a Angel Vianna… coloca o homem e a mulher numa posição muito questionadora, do que está por vir. Gostei bastante!”

Focus Cia. de Dança (RJ) – AS CANÇÕES QUE VOCÊ DANÇOU PARA MIM (apresentado no Espaço SESC Copacabana)

                                                                      [fonte: jb.com.br]

AF: “Muito talentoso o Alex! Ele tem um conhecimento de movimento… de um movimento dele mesmo, que ele criou, assinou… e tem as músicas do Roberto Carlos, as relações entre homem e mulher, das mais variadas maneiras… Gostei muito do visual das cadeiras de acrílico, do figurino de época!”

MANIFESTA! (projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ))

[fonte: gustavociriaco.blogspot.com]

AF: “Uma manifestação de um entendimento do dançar!”

Grupo Cena 11 Cia. de Dança (SC) – GUIA DE IDEIAS CORRELATAS (apresentado no Festival Panorama)

[crédito da foto: Cristiano Prim]

Fábio Honório: “Nunca tinha visto uma aula-espetáculo antes! Foi uma oportunidade de conferir como é o pensamento do Alejandro [Ahmed, coreógrafo da companhia] sobre corpo, movimento. A estética, a linha de pesquisa dele estava ali, nos textos, nas projeções, nos trechos das coreografias ao vivo e em vídeo. Foi bacana ele ter feito um panorama das criações da companhia.”

Como requisito de uma disciplina do Doutorado em Artes Cênicas da UNI-RIO, nossa colaboradora Monica da Costa compartilha a monografia em que estabelece reflexões e aproximações entre a Estética do Oprimido, de Augusto Boal, e duas performances de dança contemporânea: Diásporas, de autoria própria, que integra o espetáculo senha de acesso, com direção e coreografia de André Bern; e Repitologia, de Victor D’Olive. Confiram:

 

ESTÉTICAS DO OPRIMIDO EM “DIÁSPORAS” E “REPITOLOGIA”, por Monica da Costa

Este breve texto parte do diálogo entre as práticas e propostas do Teatro do Oprimido e duas performances de dança contemporânea: 1) A performance Diásporas, que tenho desenvolvido como trecho do espetáculo Senha de Acesso[1] e 2) o espetáculo Repitologia[2], de Victor D’Olive, criado no processo de sua participação como artista bolsista do Projeto coLABoratório, do Festival Panorama de Dança. O mesmo foi elaborado como trabalho final para a disciplina sobre Augusto Boal e o Teatro do Oprimido, ministrada pelo professor Zeca Ligiero, no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UNIRIO. Nele, me propus passear pelas questões apresentadas, mais do que me comprometer a aprofundar cada discussão.

Uma das pontes de ligação entre “Diásporas” e os elementos da Estética do Oprimido está no cruzamento entre história individual e história coletiva, com seus processos de opressão e transformação, tocados, falados, sentidos, escutados e vistos na performance. Na Estética do Oprimido essas questões de opressão e transformação vão para a cena e ali são presentificadas, recuperadas, interferidas por diversos pontos de vista. Boal acredita que todo ser humano possui a potência de se ver, e que o teatro permite o contato com essa potência, de olhar sua imagem e transformá-la, operando assim uma transformação de si. O teatro, para ele, é um lugar privilegiado dessa transformação, da possibilidade de se experimentar como ser humano, criar sua própria imagem, falar por si, refletir sobre seus lugares no mundo, abrir sentidos e se posicionar.

Na performance “Diásporas” passei pelo processo de escrever e registrar em meu corpo lugares geográficos, do Brasil e da África, pelos quais eu e meus ancestrais negros e índios passamos, por onde vivemos. Acrescento lugares relacionados à construção de minha identificação como afro-descendente, atenta às questões e presenças negras, e aos rastros atuais da história da escravização no Brasil. Essas histórias e lugares não podem ser desconectados de uma memória coletiva.

O inicio do processo partiu de uma necessidade, de escrever a palavra BENIN no lado direito do meu abdômen – começando desde o umbigo, riscando pelo baixo ventre, subindo até as costelas, passando em uma linha pelo centro do corpo e fechando novamente no umbigo – da crença intuitivo-dedutiva de uma descendência familiar do Benin, além do conhecimento da passagem do meu orixá pelo antigo Daomé (atual Benin).

A partir dessa intuição e dessa necessidade, e seguindo acontecimentos que tomei como pistas, reforcei uma reflexão que vem comigo desde a adolescência sobre o fato que faz parte da vida de uma boa parte de nós afro-ameríndios: o não-saber sobre as origens familiares e geográficas dos ancestrais africanos e indígenas, não-saber sobre pertencimento, um não-saber muitas vezes acompanhado de uma dificuldade de falar sobre essa história com devidas valorizações, constatações e reconhecimentos, para seguir adiante.

Conforme ressalta Munanga (1996), a construção da identidade, neste caso, brasileira, não é fácil, é problemática:

 

Essa identidade passa pela cor da pele, pela cultura (…) passa pela contribuição do negro na sociedade brasileira (…), passa pela recuperação de sua história africana, sua visão de mundo, sua religião. (…) A questão fundamental é simplesmente esse processo de tomada de consciência da nossa contribuição, do valor da nossa cultura, da nossa visão do mundo, do nosso “ser” (…); e valorizar isso (Munanga apud Oliveira, p. 2).

 

Outra relação que faço com as propostas da Estética do Oprimido está na memória, que para Boal não existe sem a imaginação, pertencendo as duas a um mesmo processo psíquico. A imaginação, para Boal, é a memória transformada pelo desejo; a imaginação mescla memórias e segue adiante.

Uma vez que comecei, foram surgindo outras e outras memórias, movimentos, outros lugares a serem escritos no corpo, algumas metáforas e a inclusão de acontecimentos recentes. Inicialmente, escrevia no corpo apenas e me movia, sem falar, sem contar nada. André Bern, como diretor do processo, e os colaboradores Aluisio Flores e Fabio Honório, me estimularam a contar o que se passava em cada um desses lugares, relatar essas histórias, considerando que era importante e interessante que o público soubesse e entendesse claramente o que eu estava fazendo, o assunto que estava em questão ali.

Neste momento, encontrei o trecho da poesia de Jacob Sam-La Rose em grifo de Grada Kilomba (2008), tecendo sobre a necessidade de escrever. Um trecho que ecoou sobre o processo, sublinhando-o, trazendo um pouco mais de segurança no caminho inicial de construção cênica, que nos primeiros passos é sempre nebuloso, incerto, instável:

 

Why do I write?

Cause I have to.

Cause my voice,

In all its dialects

Has been silent too long

Jacob Sam-La Rose

(“Por que escrevo? Porque preciso. Porque minha voz, em todos os seus dialetos, têm estado silenciosa por muito tempo”)

Os conteúdos de memória que vou evocando na performance falam de questões de opressão e superação, de violências vividas por ancestrais afro-ameríndios, mas ao mesmo tempo de decisões de liberdade e coragem dos mesmos, de histórias contadas por tias-avós e de experiências minhas percorrendo uma construção identitária como mulher afro-ameríndia, herdeira de todas essas histórias, atenta às presenças negras em diversos espaços e, em alguma medida, inventora da uma história singular que reconhece a construção de gerações anteriores. Cada lugar escrito no corpo – Benin, Ghana, Ketu, Bahia, Brasil, Rio, São Gonçalo, Itaocara, Ilhéus, Humaitá, Vila Isabel, Fundão, Salvador, Ponte Rio-Niterói, Tijuca e Engenho de Dentro – possui relação com acontecimentos e construções identitárias, com migrações e deslocamentos.

Na escrita de Itaocara, conto: “Aqui, terra da minha avó, meu bisavô saiu do engenho com uma aliança na mão e uma esteira na outra”. Na Tijuca, conto que “chorei por uma madrugada inteira porque não nasci negra pura linda, com um metro e setenta, cabelo longo trançado”. Em Ilhéus, “Ela foi laçada e batizada com nome português”. No Benin, “Aqui tivemos que dar muitas e muitas voltas no baobá antes de sermos mandados para cá”. E assim seguem as memórias entrelaçadas, saindo do corpo e, ao mesmo tempo, sendo reforçadas, inscritas nele.

Em “Repitologia”, as memórias são de situações vividas no projeto coLABoratório, do Festival Panorama de Dança, em processos de criação e colaboração artísticos que contribuíram para que o autor, Victor D’Olive, desenvolvesse uma hesitação em se mover e em criar.

Victor entra em cena se movendo de um modo muito particular e fala para o público: “Essa movimentação que apresento é de hesitação”.  Explica que a hesitação resultou de uma série de críticas que recebeu durante as residências do coLABoratório e declara cada crítica, citando nomes e situações, construindo um ambiente que, ao mesmo tempo que trata de questões sérias, é engraçado, pela sua maneira de contar, à medida que beira o absurdo.

Ele tomou as críticas e intervenções opressivas de outros artistas colaboradores à sua movimentação e ao seu gesto repetitivo e insistente como inquietação para a criação e como conteúdo discursivo, compartilhado durante a performance. Tendo revelado as diversas declarações que recebeu e nomeado cada artista que fez tais assertivas, Victor pede a dois voluntários da plateia que o impeçam de realizar o gesto insistente, gesto- alvo de tantas críticas. Apesar das tentativas efetivas dos voluntários, ele ainda assim consegue realizar de alguma maneira o seu gesto, dar sinais dele.

Victor está ali transformando um papel esperado a priori como bailarino e colocando em questão as próprias relações de trabalho, as relações artísticas que foram ponto de partida para sua construção cênica. Eu, de outra maneira, em “Diásporas”, não me coloco como personagem, nem no lugar tradicional de bailarina ou intérprete, mas como uma mulher contando fragmentos de sua própria história, que pode ser parecida com a história de muitos afro-brasileiros.

Esses modos de estar e construir em cena, me remetem imediatamente ao que Boal afirma ser o Teatro do Oprimido. “O teatro do oprimido, por exemplo, é o contrário do que se chama role playing, ou seja, representar um papel, algo que se usa muito em indústria.” (Boal, 2003). Ele acrescenta:

 

Então o teatro o que é que é? É um lugar que não deve jamais reiterar essa atitude fascista, essa atitude autoritária. O teatro deve ser sempre o lugar da dúvida, o lugar da pergunta, o lugar da identidade de cada um. (Boal, 2002, p.242)

 

Outros diálogos entre as performances e a Estética do Oprimido surgem, partindo de uma consideração de Boal sobre os quatro elementos ou caminhos para desenvolver essa estética:

 

“Queremos desenvolver a estética do oprimido. Para tanto há quatro caminhos principais: o primeiro é o da palavra (…), o segundo caminho é o do som (…) o terceiro vértice, por sua vez, é a imagem, (…) a última vertente (…) é a ética”. (p.184-185)

 

Nos dois processos e nos dois “produtos artísticos” encontramos a presença desses elementos da Estética do Oprimido, embora não sejam todos trabalhados em profundidade, nem tenham partido dessa proposta.

O projeto de Boal com a Estética do Oprimido se casa com práticas e pensamentos de dança que percebem o lugar desta linguagem e o poder do corpo na construção da memória e da identidade, e vice-versa. Esse pensamento afirma que, uma vez que uma pessoa conheça seu corpo, sua sensorialidade, o uso que pode fazer com todos os seus sentidos e possibilidades de criação, seu pertencimento à si mesma e seu lugar na coletividade, não pode facilmente ser homogeneizada ou submetida a qualquer outra tirania. Nas palavras de Emanuel Carneiro Leão: “Acontece realmente um aprender, quando a compreensão do que se tem, for e vier a ser sempre um dar-se a si mesmo sua própria identidade” (Leão, 1977, apud Calfa, 2006, p.66).

 

Palavra falada

 

Reservo lugar especial para a discussão sobre a fala porque ainda hoje se apresenta como um impasse na dança, uma dificuldade para a maior parte dos bailarinos. Mesmo em meio a tantos discursos da contemporaneidade, da integralidade e da transdisciplinaridade artística, a fala é equivocadamente entendida como uma ação especializada que não é do domínio da dança, que não sabemos fazer bem ou que só deve ser usada quando muito necessário, quando “o corpo” ou o movimento não dá conta do que temos necessidade de poetizar.

Em “Diásporas”, como citei anteriormente, me permiti e fui encorajada na aprendizagem de falar enquanto danço, contando histórias, sem as quais o que realizo não teria o mesmo teor, a mesma importância e clareza. As leituras de Boal, no decorrer destes meses coincidentes com o processo de criação da performance, o encorajamento dos colegas e a necessidade e escolha estética de falar dessas questões, explicitá-las, serviram como um empurrão em um processo, mesmo que mínimo, de transformação na relação com a fala em cena.

Para além das questões “técnicas” cênicas, falar, assim como dançar, é assumir um discurso, um risco, é se colocar em uma posição sobre aquilo do que se fala. A palavra falada possui uma força afetiva e energética que o texto escrito muitas vezes não possui, sobretudo a palavra emitida pelo sujeito da ação, por aquele que realmente esteve no acontecimento histórico que conta ou que faz parte de um grupo que sofreu deste acontecimento, mesmo que sua fala não carregue a emoção do mesmo. Conforme versa Boal:

 

O que é uma palavra? Não é nada e é tudo! (…) A palavra é um vazio que preenche um vazio existente entre um ser humano e outro. Isso é a palavra! Quando rasgamos a areia da praia, esculpimos no vento um som, esse vazio pode se encher daquilo que queremos: nossos desejos, vontades, pensamentos. Palavras são adequadas para transportar desejos, pensamentos, necessidades, reflexões. (Boal, 2009, p.183)

 

Em “Repitologia” ocorre algo muito interessante. Falar em cena foi uma das ações categoricamente criticada por um dos artistas convidados para coordenar uma residência do projeto, sugerindo que Victor não devia falar em cena porque não é ator. Ali foi ignorada sua necessidade de falar e potência de desenvolvê-la para a cena, como se bailarino fosse um ser incapaz de usar a palavra. O interessante é que além de seguir falando e levar a fala de maneira extremamente engraçada para a cena, Victor usa justamente a palavra falada para contar essa crítica recebida, citando inclusive o nome do coreógrafo, despertando risos descontrolados da plateia e o sentimento do absurdo ao mesmo tempo.

No entendimento e na experiência da Estética do Oprimido, essa seria uma visão especializada da arte, como no trabalho industrial, onde cada um possui uma função muito específica e não desenvolve saber sobre outras ações, papéis e desejos. Ser e fazer teatro para Boal está para além dessa especialidade.

 

Com o público

 

Até aqui as relações entre as duas performances e a Estética do Oprimido seguiram sem atritos. Uma questão surge quando pensamos a ação do público nessas performances, especialmente em “Diásporas”, e se suas características nesse sentido impedem a relação com a Estética do Oprimido.

No processo de criação de “Diásporas”, em nenhum momento pensamos em uma participação mais direta do público, ou em uma abertura à sua ação, refletindo sobre suas próprias histórias ou reconstruindo a cena, mas apenas na importância da troca, do olhar, da clareza da fala, da inteligibilidade da escrita no corpo, da necessidade de ter um retorno do publico sobre o que estamos construindo, sempre com uma preocupação que ecoe, que tenha algum diálogo possível, que não seja hermético, com a clareza que não é algo para nós mesmos apenas, e com a intenção que as questões expostas na performance estejam aparentes. Essa ausência de interferência direta do público, de abertura para sua própria ação, afasta esta performance de uma Estética do Oprimido?

Há autores da Performance que afirmam que a interferência e a questão da atividade do público na cena está para muito além de sua presença como ator na mesma, no “palco”, e de alguma interação corporal direta entre intérprete e público. O público, mesmo na posição de observador, está em ação e presença, compartilha, determina as trocas com os atores, reflete, escolhe ver isso ou aquilo, interpreta, e essas são atividades fundamentais. Nesse sentido, Boal observa:

 

(…) Nós não queremos que venha alguém nos mostrar o bom caminho, porque vamos cair de novo na mensagem; nós queremos que muitos mostrem muitos caminhos, para que a gente estimule a platéia a não receber uma imagem já pronta da realidade, mas a transformar essa imagem. (Boal, 2002, p.256)

 

Quais outras contribuições poderíamos ter para a discussão e afetação  provocadas com a performance se a concebêssemos convidando outra pessoa a recontar essas histórias contadas, criar suas versões, transformar da maneira como quisesse o que conto e faço? São perguntas que a leitura da Estética do Oprimido me provocaram.

Ao contrário do que se passa em “Diásporas”, a concepção de “Repitologia” envolveu uma intervenção direta do público. Contudo, essa intervenção é definida pelo criador-intérprete. Depois de contar a série de críticas que recebeu em relação ao seu gesto, julgado como repetitivo, e de demonstrar o gesto dançando, Victor convida dois voluntários da plateia a ajudá-lo a deixar de repetir o tal gesto, deixar de dançá-lo, impedi-lo. E então se dá uma cena hilária em que os voluntários de fato seguram Victor de todas as maneiras impedindo-o de se mover, mas ele ainda assim, com qualquer parte do corpo que esteja um pouco mais livre, realiza o tal gesto, e é perceptível pelo público essa tentativa do gesto feita “nos últimos suspiros”.

Quando solto pelos voluntários, Victor torna a realizar o movimento idêntico, e eles tornam à capturá-lo. A cena hilariante constrói e deixa ver uma série de imagens e um discurso que nos remete a muitas outras relações de poder, impedimento físico forçado e resistência. Embora a cena não se abra para outras interferências do público, nem para sua reconstrução por perspectivas diversas, está preenchida por toda uma Estética do Oprimido em seus elementos principais e chega a se parecer com as experiências de teatro invisível narradas por Boal.

As construções de formas simples nas quais o público também pode se ver fazendo, se ver naquele lugar, e a tematização de histórias individuais e coletivas no caso de “Diásporas”, comuns à história brasileira, assim como de histórias de relações de trabalho e de críticas de dança, como em “Repitologia”, também podem ser vistas como estéticas que possuem uma relação importante com o público, completamente distintas da estéticas clássicas de dança, muitas vezes presentes em coreografias que se nomeiam contemporâneas.

O trabalho de Victor D´Olive, assim como o de Charlene Saad – “Rótulo: Impressões sobre o Corpo” – inclusive pelo nosso pertencimento a uma mesma geração, e pelo modo cotidiano de falar em cena, foram estímulos para que eu ficasse mais à vontade em encontrar o lugar da fala no meu trabalho, mesmo sabendo do desejo e da necessidade particular de desenvolvê-la mais, não pela exigência alheia, mas pela força que a palavra tem, e por um desejo de melhorar, transformar, potencializar, passar por obstáculos, poetizar a voz e poder escolher como fazer, não encaixotá-la em um formato apenas pela limitação de desenvolver outro. O encontro dessas performances com a Estética do Oprimido, e principalmente em relação ao meu próprio trabalho em “Diásporas”, trouxe a possibilidade de pensar muitas questões, produziu movimento e atrito, seja no sentido da indagação sobre a amplitude e delimitação dessa Estética, seja nas provocações éticas e estéticas que, em relação à “Diásporas”, podem ainda gerar aberturas e mudanças de processo e produto cênico, de concepção e caminhos.


[1] Senha de Acesso é um espetáculo de dança contemporânea que partiu da memória como mote para criação, mas não tem necessariamente a mesma como tema. É dirigido e coreografado por André Bern, com criação e interpretação de André Bern, Aluísio Flores, Fábio Honório e Monica da Costa, e orientação de Esther Weitzman. O projeto de pesquisa e criação do espetáculo foi contemplado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

[2] Repitologia é um espetáculo de dança contemporânea de Victor D’Olive criado a partir das experiências em sua participação como artista bolsista no Projeto coLABoratório, do Festival Panorama de Dança. O projeto é um programa internacional de residências, com duração de 7 a 8 meses, desenvolvido entre a Associação Cultural Panorama (RJ) e o Núcleo do Dirceu (PI). coLABoratório consiste de 7 coreógrafos, bailarinos, diretores e/ou performers nacionais e internacionais, que desenvolvem uma residência cada, com 8 artistas bolsistas, em sua maioria brasileiros. O cerne do projeto é o trabalho colaborativo entre os artistas.

 

Referências Bibliográficas

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Editora Civilização Brasileira, 2ª edição.

BOAL, Augusto. Augusto Boal em GARCIA, Silvana (org). Odisséia do Teatro Brasileiro. São Paulo, Editora SENAC São Paulo, 2002.

KILOMBA, Grada. Plantation Memories. Episodes of Everyday Racism. Münster: UNRAST-Verlag, 2008.

LIGIERO, Zeca. Augusto Boal em LIGIERO, Zeca; PEREIRA, Vitor Hugo Adler; TELLES, Narciso (Orgs). Teatro e Dança como Experiência Comunitária. Rio de Janeiro, EdUERJ, 2009.

MUNANGA, Kambemlê. As facetas de um racismo silenciado, in SCHWARTC, L; QUEIROZ, R. Raça e Diversidade. São Paulo, EDUSP/Estação Ciência, 1996.

OLIVEIRA, Julvan Moreira de. Educação e Africanidades: Contribuições do Pensamento de Kabengele Munanga.

 

Monica da Costa é bailarina, performer, coreógrafa e doutoranda em Artes Cênicas pela UNI-RIO.

O Festival Panorama termina neste domingo, mas a cena de dança contemporânea no Rio de Janeiro continua ativa com a estreia de dois espetáculos: senha de acesso, com direção e coreografia de André Bern, e Puente… Em construção, de Amalia Herrera.

Criado através da parceria entre os artistas André Bern, Aluisio Flores, Monica da Costa e Fábio Honório, senha de acesso é fruto de uma investigação sobre a relação entre corpo e memória, que levou os bailarinos a fazer experimentos coreográficos nas ruas da Tijuca e da Gávea durante o processo de pesquisa. André explica que a memória não é o tema do trabalho, mas sim um estopim, o ponto de partida da criação. “Quem poderá falar dos possíveis temas com mais propriedade vai ser o público”.

E por falar em público, o espetáculo tem entrada franca, mas quem estiver interessado em conferir as apresentações deve se adiantar, pois cada sessão receberá apenas 30 pessoas. “Trata-se de um trabalho para ser visto de perto, então não faz sentido apresentar para uma plateia enorme. Estamos cuidando para que o público tenha uma experiência interessante”, explica André.

senha de acesso, espetáculo patrocinado pela Secretaria de Estado de Cultura, conta com a orientação da coreógrafa Esther Weitzman e terá suas apresentações de estreia entre os dias 23 e 26 de novembro. Confira o flyer abaixo:

Puente… Em construção foi concebido colaborativamente entre Amalia Herrera, Vívian Vieira e Ignacio Aldunate e integra a programação do projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker, o Manifesta! Sobre o espetáculo, Amalia escreve:

“Aparentemente as estruturas fixas, os lugares que pisamos, em que nos estabelecemos, que tocamos e sentimos, são tomados por nós como lugares construídos. Acontece o mesmo com os lugares pelos quais passamos quando dançamos? São mais frágeis, mais permanentes? Por que, e de que móvel maneira estes lugares estão e ficam em uma imagem interna, na vivência compartilhada de quem os habitou, vestiu, presenciou, atravessou? E esta imagem: não permanece também como uma estrutura interna percebida como fixa, assim como quando vemos infinitas vezes a mesma ponte? Pedras para uma possível construção mais sólida. Uma ponte com as mãos, um presente, um desejo de atravessar a parede que não é fixa: um tempo que está aí mostrando que não há início nem fim, que o que está na cena é o “entre”.”

Puente… Em construção fica em cartaz nos dias 25, 26 e 27 de novembro, conforme o flyer abaixo:

O Festival Panorama começa hoje! André Bern, colaborador deste blog, integrará o festival como membro da oficina “grid_lab”, sobre o uso de novas mídias e redes sociais para a difusão de artistas e suas iniciativas. A oficina é coordenada por Marlon Barrios Solano (dance-tech.net) em parceria com Paula Gorini, e fará a cobertura do festival.

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O Festival Panorama, um dos maiores festivais de dança e artes do corpo do Brasil, comemora sua 20a. edição agora em novembro com uma programação ainda maior do que a dos anos anteriores. Para esquentar os tamborins (ou as sapatilhas?!), publicamos aqui uma crítica de nossa colaboradora, Gabriela Alcofra. O texto, também disponível no site idança.net, trata do espetáculo Des témoins ordinaires, de Rachid Ouramdane, apresentado no Panorama de 2010. Confira abaixo:

 

O POLÍTICO E O SENSÍVEL NO INTERCÂMBIO DAS CULTURAS, por Gabriela Alcofra

Fazendo parte do programa indicado pelo seminário com.posições.políticas, realizado pelo Festival Panorama de Dança, o espetáculo de Rachid Ouramdane, Des témoins ordinaires (testemunhas ordinárias) anima discussões acerca da dialética tema do seminário: arte e política.

De origem argelina, habitando na França, o coreógrafo Rachid pesquisou durante dois anos, através de coleta de depoimentos individuais, a experiência da tortura política no Brasil, Argélia e França. Nas entrevistas, que servem também como material cênico, são apresentadas histórias pessoais que salientam memórias física, social e política, passadas e atuais. As narrativas demonstram como a vivência da tortura impregnou seus corpos e suas vidas, tornando-se uma cicatriz permanente, muitas vezes silenciosa. A relação que cada depoente tem com seu passado, frequentemente com esquecimento e distanciamento, traduz um esforço para uma nova construção identitária provocada por esse rastro violento da História. Provoca-se a partir do tema: como a História interfere na identidade social? Como esses fragmentos de testemunhas particulares refletem sobre traços de uma História coletiva?

No entanto, a pesquisa artística de Rachid preocupa-se menos com a verificação de fatos históricos e mais com a relação entre a memória desses corpos marcados e suas atitudes perante o passado e o futuro. O trabalho inicia-se onde as falas já nãoalcançam mais, onde o discurso não chega e onde reside a sensação. O silêncio prenuncia a cena.

Iniciado com depoimentos em vídeo na antessala do Teatro Carlos Gomes, a peça recepciona o público apresentando em grandes telas rostos próximos em preto e branco e vozes revelando duras lembranças. Essas imagens, que pelos ângulos da câmera e por seu caráter testimonial, vão tornando-se íntimas do público através de uma transferência de emoções. Elas retornam em momentos posteriores diferentes, obtendo uma participação direta com a construção cênica. Transformam-se em atores- objetos que se relacionam não só com o público, mas com os bailarinos e com o espaço.

No palco, uma parede de refletores torna a luz protagonista para estabelecer um ambiente favorável à insanidade, tortura e contorção, através da penumbra e seu jogo de sombras. Os bailarinos sem rostos aparentes ora se apresentam como corpos virtuosos, com fisicalidade extraordinária, ora como corpos ordinários, transeuntes sugerindo um imaginário dinâmico sobre cadências de encontros e desencontros. Mesmo que despidos de uma face, cada corpo apresenta-se como indivíduo. Suas características identitárias estão expressas em movimentações particulares e solitárias, que se alternam em momentos de atuação e observação. A cena reafirma a reflexão entre o particular e o coletivo.

A partir do espetáculo, trago à tona uma discussão feita no segundo dia do seminário com.posições.políticas[1], provocada pelo argumento de Christophe Wavelet, crítico e teórico de arte, intitulado: O Mal-entendido: que dança para que política?[2]. Seu discurso inicia-se lembrando como os processos capitalistas e a globalização borraram as fronteiras política e econômicas antes existentes entre países e continentes. Cada vez se aumenta mais o fluxo de trocas materiais e intercâmbio entre nações. Na arte hoje, podemos perceber o crescimento de grandes festivais, permitindo a internacionalização e comercialização da obra em circulação, possibilitando então a criação de um mercado mundial. Mas que implicações isso traz para a obra?

A arte é interferida pelo aparato contextual que o seu receptor possui. Ao se deslocar, a obra carrega seu conteúdo sensível, mas perde seu contexto original. Por ora, seus campos simbólicos serão reconfigurados, assim como possivelmente a leitura de seu conteúdo. A obra será resignificada e traduzida culturalmente a partir do novo contexto local. Mas, isso não implica que ela perderá necessariamente seu valor afetivo, mas estará sujeita a novas conexões sensoriais e intelectuais. Um exemplo simples seria deslocar um gesto cotidiano que em um lugar representa despedida e em outro representa uma ofensa. O significado do gesto foi modificado, mas não necessariamente na sua potência estética.

Quando se fala então de uma arte política (lembrando que durante o seminário ressaltamos as inúmeras interpretações que esse conceito sugere), pergunta-se então: é possível transitar com a obra internacionalmente ou ela se esvaziará politicamente? Em que contexto ela dialoga e se insere: local ou global? A que traduções, transcrições e transformações ela se submete nesse intercâmbio? É a partir dessa discussão, de muitas perguntas, que construo o aparato questionador para pensar a peça de Rachid Ouramdane.

O espetáculo Des temóins ordinaires, por aportar em sua estrutura cênica depoimentos testimoniais, apresenta ao público o seu contexto de pesquisa: a tortura política brasileira. Por isso, dialoga facilmente com o público local (inserto e participante do contexto), e se apresenta ao global. Sua bagagem imagética e sonora introduz aos desconhecidos e distantes do universo da tortura política uma aproximação histórica e memorial desse ambiente. Logo, presume-se que a obra transita internacionalmente sem perder seu potencial significante. No entanto, paralelamente, o discurso coreográfico constroi uma narrativa não-representativa e não-figurativa. Os corpos, em penumbra, são potência para a sensação. Essa relação remete ao pensamento do filósofo Gilles Deleuze no seu livro Francis Bacon: Lógica da Sensação[3], quando o autor analisa a obra do pintor e conclui que sua potência artística acontece ao conseguir pintar a figura para além da ilustração e representação. Isso se deve, segundo Deleuze, pela intensidade da obra, onde ficam visíveis as forças e não a figuração. Assim se apresenta a cena: através das forças e da concretização do tempo. Os bailarinos não traduzem literalmente o que é dito por depoimento em vídeo, mas constroem poeticamente sua própria narrativa. Vão para além das palavras, permeando o imagético e o sensível, seguindo uma lógica da sensação. Saltam do particular para o universal, expandindo as possibilidades de significação. Pergunta-se então a partir dessa contradição, será que é uma obra política?

A obra de Rachid é política e não o é. É porque ressalta uma memória que polemiza a interpretação, trazendo à tona discussões sobre o tema vivido politicamente. Não é porque não pretende ser um documento histórico, ou uma versão oficial dos fatos. O compromisso da arte, nesse caso, é de abrir caminhos através do sensível para explorar o que há para além das palavras e dos discursos silenciados pela eterna angústia de suas vítimas.

 

Referências bibliográficas:

[1] Seminário realizado pelo Festival Panorama de Dança. Informações no blog : cpp.panoramafestival.com

[2] O argumento é apenas uma referência para a discussão, e não a sua posição ou transliteração. São utilizadas notas livres a partir da fala de Christophe Wavelet.

[3] DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: Lógica da Sensação. Rio de Janeiro: Zahar, 2007

Gabriela Alcofra é bailarina, poeta, cientista social. Publicou o livro Partituras de um movimento impermanente, pela Editora Multifoco.

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