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Arquivo da tag: Gabriela Alcofra

Dança pra Cacilda – projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ) – reedita em 2012 o programa Novíssimos (Festival Panorama), que continua se propondo a abrir espaço para uma nova geração de criadores de dança contemporânea. Nesta nova edição, os artistas selecionados são: André Bern, Gabriela Alcofra, Rafaeli Mattos, Fernanda Gomes, Luisa Coser, Paula Pi, Rodrigo Rivera e Fernando Martins.

André Bern e Gabriela Alcofra, ambos colaboradores deste blog, abrem a programação com seus solos: respectivamente, Passificadora, movimento.sem.face. Os dois solos vão compor um programa único, apresentados um após o outro nos dias 1, 2 e 3/jun (sex, sáb e dom). Na sexta-feira, excepcionalmente, haverá duas sessões: uma às 15h, e outra, às 20h. No sábado, André e Gabriela se apresentam às 20h; e no domingo, às 19h. Toda a programação é gratuita.

[André Bern em Passificadora / crédito: Marina Pachecco]

Passificadora é uma performance solo de André Bern, que integra o espetáculo “Senha de Acesso” (criado em colaboração com Monica da Costa, Aluisio Flores e Fábio Honório, com supervisão de Esther Weitzman). A performance parte de um jogo com as palavras “pacificar” e o neologismo “passificar” (que remetem ao surgimento e implementação das UPPs, Unidades de Polícia Pacificadora, no Rio de Janeiro) para abordar questões relacionadas à ocupação e transformação do corpo enquanto território, mídia e discurso.

A pesquisa para criação do espetáculo “Senha de Acesso”, que originou esta performance, foi patrocinada pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, através da Secretaria de Estado de Cultura (SEC-RJ) – Apoio à Pesquisa e Criação Artística (Dança) 2010.

Passificadora conta com o apoio do Studio Casa de Pedra.

[Gabriela Alcofra em movimento.sem.face / crédito: Diana Sandes]

Apresentado em versão preliminar no Centro Coreográfico do Rio em março deste anomovimento.sem.face é uma parceria de Gabriela Alcofra (concepção e performance) e Camila Fersi (direção).

A pesquisa tem como cerne a contradição entre o que está revelado e o que está coberto. A imagem da utilização da burca pelas mulheres muçulmanas é referência desse choque de culturas e desejos. Dentro desse universo, a imagem de um corpo sem rosto foi revelada. O que é um corpo sem rosto?Tem identidade, tem história, tem força? O trabalho tem esse desafio: pesquisar no corpo essas imagens, elaborando uma dramaturgia para um corpo sem rosto.

movimento.sem.face conta com o apoio da Angel Vianna Escola e Faculdade, e Perffil Escola de Dança.

Para quem quiser conferir a programação dos Novíssimos, o Teatro Cacilda Becker fica na Rua do Catete, 338 (próximo ao metrô Largo do Machado) – Rio de Janeiro.

[Gabriela Alcofra em Estudos para um movimento sem face / crédito da foto: Diana Sandes]

Gostaria de utilizar esse espaço para propor uma reflexão ativa e coletiva sobre o mercado de trabalho em dança. Ainda que, atualmente, a gente esteja imerso em coletividades e proposições que se dispõem a dialogar e refletir sobre esse assunto, acho que nunca é demais trazer indagações e inquietações. No entanto, elas só farão sentido se pudermos trocar nossas impressões e pensamentos, construindo novas perspectivas.

Como artista criadora, a minha primeira pergunta é: como sobreviver da criação? E a partir dela, pergunto mais: É produto? É vendável? Quanto custa? Quem compra? Se todas essas questões têm resposta, será que são exclusivas da dança ou será que compartilhamos com as outras artes contemporâneas?

Quando escolhi minha profissão, não sei se me enganei, mas acreditei que tudo isso era possível. Que era possível sobreviver da minha criação se eu me dedicasse exclusivamente a ela, e assim, se eu conquistasse seus conhecimentos e segredos. Acreditei que não era uma questão de mercado, mas sim pessoal, e com muita auto-confiança, escolhi.

Hoje revejo. O que me sustenta nesse profissão não é a criação em si, mas caminhos paralelos e circundantes: educação, terapia, reflexão. Não são áreas longínquas, muitas vezes se tornam complementares ao conhecimento essencial, mas foram minha escolha inicial? E se não foram, porque tenho que me sustentar desses caminhos e não de outros? Quais seriam os outros?

Resolvi dizer e perguntar para outras pessoas, pesquisando possibilidades alternativas que pudessem sustentar esse sonho (?) de viver de arte. No meio desse debate, sobraram perguntas para que eu respondesse, e no silêncio e na dúvida, compartilho com vocês: Até onde você foi com a dança?

Se você investe na carreira 24 horas do seu dia – lê sobre o assunto, assiste espetáculos, faz manutenção do seu corpo, exerce sua criatividade – o que está errado? A dança bastaria apenas como hobby de final de semana? Que caminhos alternativos você conseguiria articular para que ela se tornasse sustentável?

E resvalaram exemplos de “sonhadores” que acharam seu meio do caminho: atores que dão aulas de psicodrama em empresas, bailarinos que trabalham como produtores, produtores que investem em marketing…  a meu ver, uma roda-viva de avessos. Então, pergunto a você, caro(a) leitor(a) desse blog (que muito me satisfaz nesse meio do caminho): Até aonde você foi com a dança? Foi suficiente?

Que caminhos podemos traçar? Qual é, de fato, nosso mercado de trabalho?

Bem-vinda ao mundo, eu escutei. Agora me despeço. Quero outros.

Boa noite.

Como parte da programação do Rio Dança (Centro Coreográfico do Rio de Janeiro), Estudos para um movimento sem face estreará no projeto Novos Criadores. O solo, de Gabriela Alcofra, com direção de Camila Fersi, integra o especial “Novas Criadoras”, em comemoração ao Dia da Mulher.

A pesquisa iniciou-se dentro do programa de residências do Centro Coreográfico em 2011, quando Gabriela investigava soluções coreográficas para uma dança sem rosto, junto com o artista Lucas Rodrigues.

As motivações foram diversas, dentre elas:

1) o livro “Francis Bacon, Lógica da Sensação” de Gilles Deleuze, onde o filosofo discorre sobre a possibilidade de se pintar um rosto sem que este seja figurativo, mas sim um espaço de potências e sensações. Mais do que o rosto, um grito, conferindo os créditos à obra do pintor, Francis Bacon;

2) A utilização da burca pelas mulheres muçulmanas e a contradição que essa imagem traduz: a sensualidade escondida pelo pano (muitas vezes, por debaixo da burca, as mulheres estão elegantes e vestindo roupas de marca), a contradição do mundo contemporâneo capitalista convivendo com a tradição nesse intercâmbio de culturas; e por fim, a repressão das mulheres pelo pensamento machista;

3) Imagens de René Magritte;

4) Máscaras e todas as ferramentas para se esconder o rosto, potencializando a expressão do corpo.

Dentro desse vasto universo e após 2 residências para pesquisa, Gabriela convidou Camila para fazer a direção e colaborar na dramaturgia do trabalho. Nos próximos dias 17 e 18/mar (sáb e dom), elas apresentarão uma parte da peça, ainda em construção.

[Aline Oliveira, André Bern, Monica da Costa e Gabriela Alcofra na Fundição Progresso (RJ)]

Depois de um convite super casual via e-mail, a equipe carioca do blog (faltou nossa querida colaboradora baiana Iara Cerqueira) foi à Fundição Progresso gravar uma entrevista para a TV Brasil. Além de uma conversa sobre como se organiza a iniciativa no blog no dia-a-dia das postagens, cada artista/pesquisador pôde falar também sobre sua trajetória e projetos pessoais.

Vocês vão poder conferir o resultado em breve no quadro “Coletivo”, do programa Estúdio Móvel!

 

[André Bern, Aline Oliveira, Gabriela Alcofra e Monica da Costa - faltou a baiana Iara Cerqueira para completar a foto ;) ]

Hoje foi dia de encontro da equipe do blog: bate-papo sobre os próximos rumos, conversa fiada entre amigos, comemoraçãozinha de início de ano, um misto de tudo isso.

Entre as novidades e planos de postagens futuras, temos um canal de TV interessado em fazer uma entrevista conosco, Monica da Costa e sua conversa com o ícone da dança moderna Ismael Ivo, além de uma visita à oficina de Ana Paula Bouzas no Espaço SESC (RJ) já nesta semana.

Fiquem ligad@s e sempre à vontade para fazer sugestões e críticas!!!

ctrl+alt+dança tem apenas três meses de atividades, mas os acessos ao blog só aumentam a cada novo post. Abaixo, segue uma lista dos 5 mais visitados: um agradecimento ao carinho e torcida de cada um de vocês, nossos leitores-colaboradores!

1o. lugar: a última semana de sem o que você não pode viver? e a entrevista com a coreógrafa Ivana Menna Barreto!

2o. lugar: a crítica à matéria do Segundo Caderno do jornal O Globo sobre o projeto de ocupação do Teatro Cacilda Becker (RJ), Manifesta!, escrita por André Bern!

3o. lugar: a republicação da crítica de Gabriela Alcofra sobre Des témoins ordinaires, de Rachid Ouramdane!

4o. lugar: as estreias dos novos trabalhos de André Bern e Amalia Herrera na semana pós-Festival Panorama no Rio de Janeiro!

5o. lugar: a apresentação de Monica da Costa no seminário promovido pela especialização em Educação e Contemporaneidade do CEFET-Nova Friburgo!

O Festival Panorama, um dos maiores festivais de dança e artes do corpo do Brasil, comemora sua 20a. edição agora em novembro com uma programação ainda maior do que a dos anos anteriores. Para esquentar os tamborins (ou as sapatilhas?!), publicamos aqui uma crítica de nossa colaboradora, Gabriela Alcofra. O texto, também disponível no site idança.net, trata do espetáculo Des témoins ordinaires, de Rachid Ouramdane, apresentado no Panorama de 2010. Confira abaixo:

 

O POLÍTICO E O SENSÍVEL NO INTERCÂMBIO DAS CULTURAS, por Gabriela Alcofra

Fazendo parte do programa indicado pelo seminário com.posições.políticas, realizado pelo Festival Panorama de Dança, o espetáculo de Rachid Ouramdane, Des témoins ordinaires (testemunhas ordinárias) anima discussões acerca da dialética tema do seminário: arte e política.

De origem argelina, habitando na França, o coreógrafo Rachid pesquisou durante dois anos, através de coleta de depoimentos individuais, a experiência da tortura política no Brasil, Argélia e França. Nas entrevistas, que servem também como material cênico, são apresentadas histórias pessoais que salientam memórias física, social e política, passadas e atuais. As narrativas demonstram como a vivência da tortura impregnou seus corpos e suas vidas, tornando-se uma cicatriz permanente, muitas vezes silenciosa. A relação que cada depoente tem com seu passado, frequentemente com esquecimento e distanciamento, traduz um esforço para uma nova construção identitária provocada por esse rastro violento da História. Provoca-se a partir do tema: como a História interfere na identidade social? Como esses fragmentos de testemunhas particulares refletem sobre traços de uma História coletiva?

No entanto, a pesquisa artística de Rachid preocupa-se menos com a verificação de fatos históricos e mais com a relação entre a memória desses corpos marcados e suas atitudes perante o passado e o futuro. O trabalho inicia-se onde as falas já nãoalcançam mais, onde o discurso não chega e onde reside a sensação. O silêncio prenuncia a cena.

Iniciado com depoimentos em vídeo na antessala do Teatro Carlos Gomes, a peça recepciona o público apresentando em grandes telas rostos próximos em preto e branco e vozes revelando duras lembranças. Essas imagens, que pelos ângulos da câmera e por seu caráter testimonial, vão tornando-se íntimas do público através de uma transferência de emoções. Elas retornam em momentos posteriores diferentes, obtendo uma participação direta com a construção cênica. Transformam-se em atores- objetos que se relacionam não só com o público, mas com os bailarinos e com o espaço.

No palco, uma parede de refletores torna a luz protagonista para estabelecer um ambiente favorável à insanidade, tortura e contorção, através da penumbra e seu jogo de sombras. Os bailarinos sem rostos aparentes ora se apresentam como corpos virtuosos, com fisicalidade extraordinária, ora como corpos ordinários, transeuntes sugerindo um imaginário dinâmico sobre cadências de encontros e desencontros. Mesmo que despidos de uma face, cada corpo apresenta-se como indivíduo. Suas características identitárias estão expressas em movimentações particulares e solitárias, que se alternam em momentos de atuação e observação. A cena reafirma a reflexão entre o particular e o coletivo.

A partir do espetáculo, trago à tona uma discussão feita no segundo dia do seminário com.posições.políticas[1], provocada pelo argumento de Christophe Wavelet, crítico e teórico de arte, intitulado: O Mal-entendido: que dança para que política?[2]. Seu discurso inicia-se lembrando como os processos capitalistas e a globalização borraram as fronteiras política e econômicas antes existentes entre países e continentes. Cada vez se aumenta mais o fluxo de trocas materiais e intercâmbio entre nações. Na arte hoje, podemos perceber o crescimento de grandes festivais, permitindo a internacionalização e comercialização da obra em circulação, possibilitando então a criação de um mercado mundial. Mas que implicações isso traz para a obra?

A arte é interferida pelo aparato contextual que o seu receptor possui. Ao se deslocar, a obra carrega seu conteúdo sensível, mas perde seu contexto original. Por ora, seus campos simbólicos serão reconfigurados, assim como possivelmente a leitura de seu conteúdo. A obra será resignificada e traduzida culturalmente a partir do novo contexto local. Mas, isso não implica que ela perderá necessariamente seu valor afetivo, mas estará sujeita a novas conexões sensoriais e intelectuais. Um exemplo simples seria deslocar um gesto cotidiano que em um lugar representa despedida e em outro representa uma ofensa. O significado do gesto foi modificado, mas não necessariamente na sua potência estética.

Quando se fala então de uma arte política (lembrando que durante o seminário ressaltamos as inúmeras interpretações que esse conceito sugere), pergunta-se então: é possível transitar com a obra internacionalmente ou ela se esvaziará politicamente? Em que contexto ela dialoga e se insere: local ou global? A que traduções, transcrições e transformações ela se submete nesse intercâmbio? É a partir dessa discussão, de muitas perguntas, que construo o aparato questionador para pensar a peça de Rachid Ouramdane.

O espetáculo Des temóins ordinaires, por aportar em sua estrutura cênica depoimentos testimoniais, apresenta ao público o seu contexto de pesquisa: a tortura política brasileira. Por isso, dialoga facilmente com o público local (inserto e participante do contexto), e se apresenta ao global. Sua bagagem imagética e sonora introduz aos desconhecidos e distantes do universo da tortura política uma aproximação histórica e memorial desse ambiente. Logo, presume-se que a obra transita internacionalmente sem perder seu potencial significante. No entanto, paralelamente, o discurso coreográfico constroi uma narrativa não-representativa e não-figurativa. Os corpos, em penumbra, são potência para a sensação. Essa relação remete ao pensamento do filósofo Gilles Deleuze no seu livro Francis Bacon: Lógica da Sensação[3], quando o autor analisa a obra do pintor e conclui que sua potência artística acontece ao conseguir pintar a figura para além da ilustração e representação. Isso se deve, segundo Deleuze, pela intensidade da obra, onde ficam visíveis as forças e não a figuração. Assim se apresenta a cena: através das forças e da concretização do tempo. Os bailarinos não traduzem literalmente o que é dito por depoimento em vídeo, mas constroem poeticamente sua própria narrativa. Vão para além das palavras, permeando o imagético e o sensível, seguindo uma lógica da sensação. Saltam do particular para o universal, expandindo as possibilidades de significação. Pergunta-se então a partir dessa contradição, será que é uma obra política?

A obra de Rachid é política e não o é. É porque ressalta uma memória que polemiza a interpretação, trazendo à tona discussões sobre o tema vivido politicamente. Não é porque não pretende ser um documento histórico, ou uma versão oficial dos fatos. O compromisso da arte, nesse caso, é de abrir caminhos através do sensível para explorar o que há para além das palavras e dos discursos silenciados pela eterna angústia de suas vítimas.

 

Referências bibliográficas:

[1] Seminário realizado pelo Festival Panorama de Dança. Informações no blog : cpp.panoramafestival.com

[2] O argumento é apenas uma referência para a discussão, e não a sua posição ou transliteração. São utilizadas notas livres a partir da fala de Christophe Wavelet.

[3] DELEUZE, Gilles. Francis Bacon: Lógica da Sensação. Rio de Janeiro: Zahar, 2007

Gabriela Alcofra é bailarina, poeta, cientista social. Publicou o livro Partituras de um movimento impermanente, pela Editora Multifoco.

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