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Alissan Maria da Silva, mestranda do programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-RIO), compartilha com o ctrl+alt+dança o artigo intitulado “Diálogos sobre presença, performance e afeto”. Nele, a autora estabelece pontes entre experimentos realizados numa disciplina do curso com a noção de produção de presença proposta na obra de Hans Ulrich Gumbrecht. Confira!

DIÁLOGOS SOBRE PRESENÇA, PERFORMANCE E AFETO, por Alissan Maria da Silva

Eu escrevo com o corpo.

Poesia não é para compreender, mas para incorporar.

Entender é parede:

Procure ser uma árvore

Manoel de Barros

Este artigo tem como objetivo estabelecer relações entre os experimentos performáticos realizados na disciplina Performance e Afeto e Produção de presença de Gumbrecht. Concomitante a leituras sobre performance, fomos levados a realizar experimentos performáticos com o foco na potencialização de afetos nas relações humanas e estabelecer conexões por meio da investigação de alguns conceitos. A proposta é que realizássemos experimentos performáticos em duplas escolhidas por sorteio. A primeira experiência realizada por alunos da disciplina, que em sua maioria acabava de se conhecer; a segunda por um participante da disciplina e um artista indicado por um companheiro de turma; e a terceira por participante e uma pessoa fora do contexto profissional artístico. O registro destas experiências foi postado em um blog, criado especialmente para este fim, onde todos temos acesso às experiências uns dos outros para refletirmos, trocarmos e produzirmos nossos artigos.

Os conceitos a serem investigados – heterotopia; performatividade; TAZ; utopia; afeto; view point; radicant; produção de presença; estética relacional; autotransformação; arte contextual; situacionismo; work in progress; paisagem sonora; estética da recepção; skyart – foram sugeridos para alguns e escolhidos por outros, após uma conversa inicial sobre certezas e incertezas, desejos e projetos de pesquisa e atuação profissional.

Inspirada pela forma quase que autobiográfica com que Gumbrecht escreve seu livro, escolhi a partir da leitura de produção de presença pensar as experiências realizadas por mim mesma nessa jornada performática. Procuro outras vias para a escrita deste artigo, então, possivelmente, não estarei seguindo uma lógica de distanciamento total da experiência para refletir sobre ela. Acredito que o leitor caminhará por momentos de presença de Alissan. Contudo, produzir presença através deste texto não é exatamente o intuito (embora o desejo de atingi-la exista), já que imersos numa tradição do campo hermenêutico isso é um exercício paulatino, bem do modo hermenêutico de pensar.

É de suma importância, portanto, que o leitor deste artigo tenha em mente que de certa forma este será redutor das idéias de Gumbrecht e o ideal seria que fosse capaz de colocar uma pitada de curiosidade no leitor a ponto de levá-lo a desejar sentir o sabor do livro, para que possa confrontar, complementar ou até mesmo refutar nossos escritos. [Para continuar lendo, clique aqui]

[Fórum UFRJ - campus da Praia Vermelha / fonte: aspasiacamargo.com.br]

Essa semana Nathalia Melo irá propor 3 aulas gratuitas de performance no Rio de Janeiro como contrapartida ao apoio do MinC à sua apresentação “Abscene” no festival City of Women (Eslovênia).

Para participar é preciso ter interesse nos assuntos: pele, abjeção, fronteiras, sexualidade, reprodução e cópia.

A primeira aula aconteceu hoje (23/jan), mas ainda haverá outra amanhã e mais uma na quarta-feira.
Abaixo seguem os horários e locais:

SEGUNDA 23/01 – 14h às 18h – Antiga Casa dos Estudantes Universitários/Fórum UFRJ

TERÇA 24/01 – 9h às 13h – Vianinha na ECO/UFRJ

QUARTA 25/01 – 14h às 18h – Antiga Casa dos Estudantes Universitários/Fórum UFRJ

Apresentada no último Encontro Internacional de Antropologia e Performance (EIAP), A arte de caminhar pelas ruas ou delirium ambulatorium reflete sobre a caminhada como ação performativa a partir de duas proposições de arte de performance. Confiram:

 

A ARTE DE CAMINHAR PELAS RUAS OU DELIRIUM AMBULATORIUM, por André Bern

 

Introdução

Este trabalho é fruto de uma primeira tentativa de aproximação mais efetiva de meu projeto de dissertação no programa de pós-graduação em Artes da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro). Chamo de “primeira tentativa mais efetiva” porque é verdadeiramente o momento de reencontro com o meu pré-projeto. Penso no quão gigantesca me parece agora a proposta de pesquisa que tinha feito então, no segundo semestre de 2010, durante o processo seletivo. Nesse sentido, esta primeira tentativa também é um exercício de recorte de interesses e possibilidades dentro do campo ao qual minhas atenções estão voltadas: a arte de performance.

Desde 2008, após um período de quatro anos durante o qual me afastei voluntariamente da prática artística, venho aproximando a minha criação em dança contemporânea às artes visuais através da performance. Tal direcionamento, ainda que muito intuitivo no início, me reconduziu à universidade em busca de interlocuções mais potentes.

Aqui neste trabalho, o recorte dentro do amplo e instigante universo da performance se efetua na medida em que faço referência a duas obras que têm a caminhada como elemento constitutivo. São elas: Aqui Enquanto Caminhamos (Here Whilst We Walk), de Gustavo Ciríaco (Brasil) e Andrea Sonnberger (Alemanha/Áustria); e Walking Poem Rio, da plataforma hello!earth (Dinamarca). O desenrolar de ambas se dá com a participação do público ao longo de jornadas a pé na cidade.

Já que trato essencialmente de deslocamentos, proponho que este texto também seja lido enquanto caminhada, cruzando as avenidas de pensamentos e práticas de outros autores e artistas, alguns mais conhecidos nossos, outros nem tanto. E com isso, quem sabe, respiremos ares mais ou menos rarefeitos, perfumes diversos, e avistemos detalhes singulares em paisagens rotineiras. Entretanto, importa mais, e antes de qualquer coisa: flanar, caminhar, permitir-se afetar e ser afetado. Vamos?

 

Atalhos na direção do recorte: Oiticica, Guz e João do Rio

 

Esvaziar a bolsa. Revelar os pertences.

 

Para este texto-caminhada, poema andante (ou bate-papo, se você assim preferir), inicialmente sugiro três trechos, que podem funcionar como vielas, atalhos na direção desse recorte. O primeiro deles é de Hélio Oiticica, um registro de sua performance Mitos Vadios, de 1978, ano em que comecei minha própria caminhada nesse mundo:

(…) espécie de poetizar do urbano ® as ruas e as bobagens do nosso daydream diário se enriquecem ® vê-se que elas não são bobagens ® nem trouvailles sem consequência ® são o pé calçado pronto para o delirium ambulatorium renovado a cada dia.

A noção de “delirium ambulatorium” proposta por Oiticica aparece no título deste texto como indicação de um olhar poetizador que proponho lançar sobre a caminhada, presente nas performances mencionadas. Conecto essa mesma noção a uma outra, a de flâneur: aquele que flana, vagueia pelas ruas da cidade, sem destino pré-definido, em andanças de vadiagem, na posição de um observador atento a tudo o que acontece no entorno, o espaço urbano.

“É como virar turista na própria cidade”, diz Stela Guz, artista colaboradora de Walking Poem Rio. Este é o segundo dos três trechos de que lanço mão aqui no início do percurso de nosso texto-caminhada. O depoimento de Guz se comunica com o registro de Oiticica, pois poetiza o estar/viver na cidade e ressignifica/renova a experiência urbana através da ação performativa. Ser turista na própria cidade é como ganhar um novo corpo e, desta forma, poder vivenciar os mesmos caminhos e trajetos costumeiros com novos olhos, nova pele, sentidos menos viciados.

O terceiro trecho é de João do Rio e data do início do século XX: “Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem”. Eis uma frase que complementa as anteriores e que não deixa dúvidas: ser vagabundo, ou seja, permitir-se o tempo necessário para uma observação cuidadosa e sensível é condição sine qua non quando se deseja redescobrir o urbano.

 

A caminhada enquanto ação performativa: duas obras

 

Olá! Nesse momento, há estrelas explodindo, brilhando, colidindo no universo.  

 

Depois de passar por esses atalhos, mais sensibilizado por suas contribuições, retorno às duas performances que servirão como parâmetros para nossa reflexão-poetização sobre a caminhada enquanto ação performativa. Antes, porém, devo compartilhar os motivos pelos quais selecionei as duas obras.

Além de apresentarem a caminhada como elemento constitutivo, elas me interessam na medida em que foram criadas por artistas de dança que, ou migraram definitivamente para a área da performance, ou optaram por permanecer transitando entre as duas linguagens, como é o caso do coreógrafo carioca Gustavo Ciríaco. Além disso, elas me possibilitam observar o fenômeno da caminhada enquanto ação performativa sob dois ângulos distintos: o de público-participante em Aqui Enquanto Caminhamos; e o de colaborador criativo em Walking Poem Rio.

Aqui Enquanto Caminhamos tem início num ponto pré-definido da cidade, onde artistas e público, de 6 a 20 participantes, se encontram. No caso de minha experiência com a performance, na cidade de Copenhague em 2009, o encontro aconteceu num bar. Este se encontrava na antiga área de abatedouros da cidade, revitalizada e transformada num complexo de estabelecimentos de diversão noturna, como a Lapa, no Rio de Janeiro. Era por volta das 16h.

Ali, todos deixamos nossas bicicletas, o meio de transporte mais comum da cidade, e esperamos Gustavo e Andrea. Os dois saem do bar, cumprimentam algumas pessoas do público – nós usávamos uma pulseira de papel rosa – esticam uma faixa elástica branca, dentro da qual entram e de lá nos convidam.

Assim começa a performance, com o convite para adentrar a área delimitada. Pensando melhor, talvez já tivesse começado antes, desde o momento em que os artistas saíram do bar e cumprimentaram o público.

Dali, seguimos todos, artistas e público, dentro dos limites impostos pela faixa elástica, caminhando pelas ruas da cidade. Antes da saída, uma regra é estabelecida: não se pode falar durante toda a duração da jornada. Os artistas sabem a priori o trajeto que será percorrido, então conduzem o grupo por ruas selecionadas por eles nos dias anteriores ao acontecimento da performance.

A entrada na área criada pelos artistas obviamente gera uma noção de “dentro” e “fora”, “centro” e “periferia”. O fator mais curioso que advém dessa entrada é o senso de comunidade que emerge entre os participantes, quase que instantaneamente. Lembro de que nos entreolhávamos, encabulados, mas já nos sentíamos parceiros, próximos de alguma maneira.

Conforme o grupo dentro da faixa elástica segue adiante, as noções de centro e periferia se alteram e, muitas vezes, se invertem. A faixa elástica permitia que o nosso espaço, o de “dentro”, fosse regulável, assumisse variadas formas, mais ou menos amplas. Detalhes da arquitetura saltam aos olhos, tornando-se o “centro” em alguns momentos, naquela caminhada pouco usual. Os outros transeuntes observam, interagem. Eles faziam perguntas, mas nós não respondíamos, em respeito ao voto de silêncio feito no ponto de encontro. No máximo, um dos artistas, sem usar uma palavra sequer, levantava a faixa, como que estendendo o convite àquele que nos interpelava.

Havia momentos de pausa em que os artistas interrompiam a caminhada e observavam o entorno. Nós acatávamos e fazíamos o mesmo. A sensação de estar em silêncio junto a outras pessoas me remetia a momentos meditativos em igrejas.

Numa dessas pausas, creio que a última antes do desfecho da performance, os artistas deixaram a área da faixa e seguiram cada qual uma rua diferente. Ficamos literalmente numa encruzilhada e foi a primeira vez, desde que saímos do ponto de encontro, que alguém disse alguma coisa. De dentro da faixa, avistávamos os dois artistas, quase no fim de cada rua, encarando o grupo e esperando uma possível decisão. “Vamos, gente!”, alguém disse, mas o fato é que ninguém arredou o pé e, depois de uns cinco ou dez minutos (será que foi só impressão?), os artistas voltaram, entraram na faixa e nos conduziram por uma das ruas (a título de curiosidade: a que Andrea tinha escolhido). Foi certamente o momento mais “tenso” da caminhada, e fico me perguntando até hoje o que teria acontecido se o grupo optasse por seguir um dos artistas.

A performance se encerraria alguns metros à frente, numa praça enorme, onde os artistas distribuíram pipas entre os participantes. Brincamos por minutos a fio até que o grupo naturalmente foi se despedindo, decidindo quem levaria as pipas (eu cedi a minha), e finalmente, se dissolvendo.

 

Seguir uma pessoa sem que ela perceba. Decidir até onde/quando seguir.

 

Em Walking Poem Rio, os artistas criadores da performance se fazem presentes, acompanhando o público-participante na jornada pelas ruas, em grande parte, de maneira diversa: via tocadores de mp3. Alguns desses artistas também aparecem em pontos específicos da caminhada, mas diferentemente de Aqui Enquanto Caminhamos, não fazem todo o percurso ao lado do público. Walking Poem Rio é uma jornada solitária, ainda que na companhia (eventual) de performers e (constante) de transeuntes, feita individualmente por cada participante. Nesta performance, os participantes não encontram uns aos outros.

A obra integrou a programação do Festival Panorama, um dos maiores festivais de dança contemporânea do Brasil, em sua edição de 2008. O público era informado, ao comprar o ingresso, sobre o horário em que deveria estar presente no ponto de partida da performance. O ponto em questão era um sebo próximo à Praça Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro. Ali, cada pessoa recebia um aparelho tocador de mp3 e uma pulseira verde, que a identificava (aos performers espalhados pela cidade, inclusive) como participante da performance. O tocador de mp3 só podia ser manipulado pelos performers, que selecionavam as faixas a serem reproduzidas ou, dependendo do ponto do trajeto, retiravam o aparelho dos participantes.

As mensagens em mp3 alternam momentos mais poéticos, que inspiram a contemplação do entorno sob um novo ângulo, e outros de cunho mais diretivo, sobre o que fazer a seguir, aonde ir, ou quem encontrar, por exemplo. Há trechos com gravações musicais, que compõem uma espécie de trilha sonora de alguns momentos da caminhada, e períodos sem gravação alguma, geralmente quando há interação com um performer. Muitas vezes, os performers em Walking Poem Rio são invisíveis aos olhos dos participantes, pois tendem a se misturar entre os transeuntes. Trabalham à paisana, certificando-se de que os participantes estão seguindo o trajeto previsto. Há exceções nessa invisibilidade, tais como o performer vestido de coelho, à espera do público na saída do metrô Glória, ou a bailarina que carrega uma sacola d’água e sugere que o público a siga, num momento que leva o participante a uma situação de perseguição, típica de filmes de ação.

As situações provocadas na performance fazem uso de elementos específicos presentes no trajeto pré-definido pelos criadores. Em dado momento, o participante recebe uma pedra portuguesa, que mais à frente será usada para preencher uma calçada esburacada. Revelam-se, dessa forma, questões prementes da cidade, como neste caso a má-conservação de certas áreas. Seguindo as instruções, os participantes têm a chance de se surpreender com locais menos conhecidos, detalhes imperceptíveis no caos da multidão (em especial a do centro da cidade), além de se expor a experiências sensoriais pouco usuais. Um exemplo disso, é o momento em que ao sair de uma academia de dança de salão, à qual foi guiado através de fotografias do caminho, o participante é apresentado a um dos performers (neste caso, eu), que lhe pede para fechar os olhos. O participante é, então, guiado ao longo de toda a Rua da Lapa.

O encerramento da performance não é menos sensorial: numa parada de bonde, o participante recebe uma bala de coco (artesanal, comumente vendida pelos camelôs da área) de um performer, que lhe diz: “Quando a bala acabar, a sua jornada terá terminado”. De onde podemos inferir que, aquele é precisamente o fim da performance enquanto roteiro planejado pelos artistas. Entretanto, o fechamento para cada participante vai depender do tempo que a bala levar para se dissolver em sua boca. Ou seja, o participante continuará performando, mantendo-se num estado sensível de prontidão e conexão com o entorno, ainda que a infra-estrutura para que a performance aconteça nos parâmetros pré-definidos pelos artistas já não vigore mais.

 

A poetização do espaço urbano: o flâneur no reality show invisível

  

Lembrar da primeira vez em que esteve num lugar. Contar sobre o lugar, o que fez lá, como voltou para casa… Não usar palavras.

Tanto Aqui Enquanto Caminhamos como Walking Poem Rio me possibilitam conexões com o “delírio ambulatório” proposto por Oiticica na medida em que ambas as obras consistem, numa leitura mais genérica, de uma caminhada cujo principal direcionamento é a poetização do espaço urbano. Por outro lado, este flanar pela cidade não tem mais o tom romântico do flâneur a que o texto de João do Rio naturalmente se reporta. Trata-se, sem dúvida, de andanças de vadiagem; no entanto, como nas palavras de André Lepecki, “eis que o passeio pela cidade metropolitana, até então liso, passa a revelar insuspeitadas fissuras.”

Em outras palavras, ainda que sejam jornadas exploratórias pela cidade, em que o público-participante se entrega ao roteiro prescrito pelos artistas-performers, as performances citadas opõem-se à noção original de flâneur quando abdicam de certa ingenuidade e descompromisso com o trajeto para intencionalmente suscitar estranhamentos, visualidades carregadas de discursos alternativos.

 

Até onde o seu céu alcança?

 

“The invisible reality show” (O reality show invisível), conceito desenvolvido por Vera Maeder em parceria com o diretor de teatro dinamarquês Eero Tapio Vuori e utilizado pela plataforma hello!earth na construção de suas obras, “faz a performance emergir na mente do espectador, deixando-o aberto para experiências múltiplas, pessoais e exclusivas” (GOMES, 2007). Conjuga princípios interativos, experiências sensoriais e sinestésicas, em propostas onde a realidade cotidiana do local funciona como cenário performático ou “espaço de performação” (MELIM, 2008, p.9), e permite que acasos e dinâmicas próprias dos movimentos do espaço urbano interajam com atos intencionais, fabricados pelos artistas-criadores. Assim sendo, não se trata apenas de criar ficções teatrais a serem vividas pelo público-participante fora do espaço cênico convencional, mas sim promover uma reconstrução afetiva do lugar a partir do despertar subjetivo de sensações. Vera Maeder, performer e diretora da plataforma hello!earth, resume da seguinte maneira: “A presença do público é a dança desta performance”.

O crítico cultural Brian Holmes, em seu “Manifesto Afetivista” (tradução minha), propõe um entendimento de existência no mundo, pró-afeto e pró-intimidade, enquanto intercâmbio de escalas. Escalas estas que vão desde o espaço mais íntimo até o global. Segundo ele, “para estabelecer uma conexão com a arte afetivista, criticá-la e recriá-la, é preciso saber não apenas onde novos territórios sensíveis emergem (…), mas também em que escala (HOLMES, 2009)”. A escala das mobilidades diárias, residência da expressão popular, das artes visuais tradicionais, do espaço público e da natureza em coexistência com a presença humana, está a um nível da escala mais íntima. É interessante perceber que ambas as performances citadas neste trabalho atuam exatamente nesta mesma escala. “A intimidade e suas expressões artísticas talvez sejam o que vai surpreender o século XXI”, afirma Holmes, em tom profético.

Nesse sentido, aproximo a noção de escala das mobilidades diárias de Holmes daquela em que, segundo Michel de Certeau, vivemos enquanto “praticantes ordinários da cidade”. Eis um espaço cujos caminhos se respondem entrelaçados, onde convivem “poesias ignoradas de que cada corpo é um elemento assinado por muitos outros” (CERTEAU, 1998, p.171). Um espaço ou escala propenso ao turvamento da percepção desses cruzamentos de caminhantes “cujo corpo obedece aos cheios e vazios de um “texto” urbano que escrevem sem poder lê-lo”. Ou seja, a proximidade das trajetórias individuais cega, torna insensíveis às mesmas aqueles que caminham; impede que uma certa estranheza do cotidiano venha à tona.

Assim, Aqui Enquanto Caminhamos e Walking Poem Rio funcionam como “práticas estranhas ao espaço “geométrico” ou “geográfico” das construções visuais” (CERTEAU, 1998, p.172), que remetem tanto a uma nova operação no entorno, assim como a uma espacialidade renovada do mesmo. O caminhante atualiza o conjunto de possibilidades e proibições organizados pela ordem espacial vigente no momento em que se desloca pela cidade, uma vez que em suas idas e vindas, nas improvisações inerentes às andanças, mudam ou deixam de lado elementos locais.

 

Quão presentes podemos verdadeiramente estar?

 

A operação diferenciada do público nessas caminhadas performativas também me oferece a oportunidade de endereçar uma questão pulsante quando se trata de trânsitos entre dança e performance: o papel do espectador.

Jacques Rancière nos adverte para a armadilha de transformar espectadores em atores, na tentativa de supostamente tornar o público mais “ativo” no desenrolar de um acontecimento cênico ou performático. Cita como características da arte contemporânea o cruzamento de fronteiras e a nebulosidade da distribuição de papéis, quando “todas as competências artísticas desviam-se de seu próprio campo de atuação e trocam papéis e poderes umas com as outras” (RANCIÈRE, 2007, p.280, tradução minha). Dessa maneira, há espaço para peças teatrais sem palavras e espetáculos de dança com palavras, instalações e performances ao invés de obras ditas plásticas, por exemplo.

Segundo o filósofo, há três maneiras de lidar com o que ele chama de “confusão de gêneros” na arte contemporânea: 1) através do revival da noção de “obra de arte total” (Gesamtkunstwerk), que pode representar uma combinação da apoteose de fortes egos artísticos com um tipo de consumismo hiperativo; 2) através da ideia de hibridização dos meios artísticos, que complementa a visão de que estes são tempos de individualismo em massa, expressado pela incansável troca de papéis e identidades, realidade e virtualidade, vida e próteses mecânicas (e eventualmente levariam às mesmas consequências trazidas pelo item anterior); ou 3) através da transformação do esquema causa/efeito.

Rancière defende esta última na medida em que ela invalida a oposição entre atividade e passividade baseadas num critério de desigualdade. Em outras palavras, anula o pressuposto de que um espectador “passivo” é algo menor, e por essa razão, deve-se alçá-lo à categoria de “ativo”. Não por acaso há tantos espetáculos de teatro e dança em que o público é praticamente arrastado à cena. Nesse entendimento de atividade do espectador não se cogita a possibilidade de ser ativo e estar sentado na plateia.

“Ser  espectador não significa uma passividade que deve ser convertida em atividade. É nossa situação normal. Nós aprendemos e ensinamos, agimos e sabemos, através da posição de espectadores que conectam o que veem com o que acabaram de ver, ouvir, fazer ou sonhar. Não há um meio privilegiado, assim como não há um ponto de partida privilegiado. Há pontos de partida em toda a parte, e divisores de águas a partir dos quais aprendemos coisas novas, desde que antes nos desfaçamos da pressuposição da distância, da distribuição de papéis e, finalmente, das fronteiras entre territórios.” (RANCIÈRE, 2007, p.279, tradução minha)

O autor ainda sugere que artistas, assim como pesquisadores, devem promover através de suas obras um espaço onde “a manifestação e o efeito de suas competências se tornem dúbios na medida em que eles moldam a história de uma nova aventura em uma nova expressão idiomática”. Então, naturalmente, atrairão espectadores que, emancipados, serão capazes de fazer suas próprias traduções e apropriações.

 

Coletividade temporária: considerações finais

 

Esvaziar sua bolsa, contendo coisas de que não precisa mais, numa calçada. Deixá-las e ir embora.

Penso que Walking Poem Rio e Aqui Enquanto Caminhamos não são obras que apenas possibilitam ao público “levantar das poltronas” e se engajar em ações entendidas como mais “ativas”. Nelas, o público é convidado a integrar uma outra forma de organização coletiva, ou “coletividade temporária”, como propõe mais especificamente a performance de Ciríaco e Sonnberger. Mesmo a caminhada solitária de Walking Poem Rio promove um estranho senso de pertencimento: em relação aos outros transeuntes, que em geral não têm a menor consciência de que a performance está acontecendo (o que também vale para o caminhante-performer); e, até mesmo, em relação aos outros caminhantes-performers, que estão fazendo sua jornada mais à frente ou logo atrás (cada participante sai do ponto de partida da performance em intervalos de 15 minutos). As performances em questão não são meros deslocamentos das indicações, sinalizações e guias dos espaços expositivos e/ou cênicos para as ruas. São obras “penetráveis”, como no universo de Oiticica, cuja configuração é porosa o suficiente para absorver decisões, improvisações e limites sugeridos pelos participantes. Fato este que as tornam extremamente complexas e multifacetadas em seu planejamento e implementação.

Aqui estivemos.

 

REFERÊNCIAS

Festival Panorama, entrevista com Vera Maeder (hello!earth). Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=taKhAdBvTUc. Último acesso: 17/08/2011.

Hélio Oiticica, Mitos Vadios (1978). Registros do artista disponíveis em: http://www.itaucultural.org.br/aplicexternas/enciclopedia/ho/index.cfm?fuseaction=documentos&cod=462&tipo=2. Último acesso: 17/08/2011.

hello!earth, Walking Poem Rio (2008). Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=Wg-yR4RGkIU&feature=related. Último acesso: 17/08/2011.

Here Whilst We Walk (Aqui Enquanto Caminhamos). Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=1n4nOksqGMA. Último acesso: 17/08/2011.

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Obra de domínio público disponível em: http://www.biblio.com.br/defaultz.asp?link=http://www.biblio.com.br/conteudo/PauloBarreto/almaencantadoradasruas.htm. Último acesso: 17/08/2011.

 

BIBLIOGRAFIA

CERTEAU, Michel de. “Caminhadas pela cidade”. In: A invenção do cotidiano – artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1998, p.169-83.

GOMES, Fernanda. “The invisible reality show: a intervenção performática urbana na produção e recepção do espaço contemporâneo”. Revista e-compós. Rio de Janeiro, vol.10, 2007.

HOLMES, Brian. “The affectivist manifesto: artistic critique for the 21st century”. In: Escaping the overcode: activist art in the control society. Eindhoven: Van Abbemuseum, 2009

LEPECKI, André. “O corpo colonizado”. Gesto – Revista do Centro Coreográfico. Rio de Janeiro, vol. 2, 2003, p.7-11.

MELIM, Regina. Performance nas artes visuais. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

RANCIÈRE, Jacques. “The emancipated spectator”. ArtForum. New York, March 2007, p.271-80.

 

André Bern é artista de dança e performance. Mestrando em Artes (UERJ), sua produção artística gira frequentemente em torno de questões identitárias e interdisciplinares, nas fronteiras entre gênero e raça, dança e artes visuais. Atualmente leciona no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ).

Convidado a fazer uma primeira contribuição textual neste blog, Leandro Cristóvão - professor de Letras e entusiasta da cena de dança contemporânea e performance no Rio de Janeiro – retoma um artigo de Gustavo Bitencourt (publicado em 2008, no site idança.net) para reivindicar novos espaços de compartilhamento e reflexão na área. Um espaço como se propõe o ctrl+alt+dança. Confiram abaixo:

 

MIAU!, por Leandro Cristóvão

Os gatos pingados. Esse era o título de um texto que li há alguns anos, cujo tema girava em torno do público de dança contemporânea no Brasil. O título é uma metáfora para expressar o quantitativo de espectadores para trabalhos desse tipo. Uns gatos pingados é o que, segundo o texto, vemos nos espetáculos. Naquele momento, fiquei pensando nos motivos de isso acontecer. Ele tem razão, pensava eu. Quase sempre, o público dos espetáculos a que assisto é muito reduzido e, em sua maioria, composto por artistas. Isso, poucos felinos artistas. Em meio à gataria, sempre me sinto meio cachorro, meio macaco, meio jacaré. Olho à minha volta e fico pensando se há outros não-felinos por ali.  Constantemente, não os encontro.

E aí, me pergunto: será que nas vizinhanças dos não-felinos, notícias sobre esses espetáculos têm chegado? Será que não-felinos estão sendo convidados a participar desses encontros? Será que os felinos sentem a necessidade de compartilhar seus trabalhos com outras espécies? Será que os felinos possuem espaço para miar?

Como um não-felino, arrisco dizer que a divulgação, reflexão e discussão dos trabalhos de dança contemporânea na cidade do Rio de Janeiro se dão em núcleos fechados. Ali, os seres de outras espécies, ou pararam por engano, ou foram convidados por seus amigos gatos. Desses núcleos, como o Teatro Cacilda Becker ou o Angel Vianna, ouvem-se apenas miados. Seja na área reservada aos artistas, ou ao público, são raríssimos os latidos, os cacarejos. E não são muitos os miados; são pouquíssimos.

E por que tem que ser assim? Por que motivo, nós, os não-felinos, não chegamos até esses espaços? Será que é porque não entendemos nada? Será que é porque a gente costuma achar que quando o assunto é de gatos, somente os gatos se interessam e entendem seus miados?

Pensando pelo ponto de vista dos gatos, será que eles querem que seus miados sejam compreensíveis? Será que eles encontram espaços nos quais seus miados sejam ouvidos? E mais, será que há espaço para que todos os gatos, de todos os gêneros, de todas as cores, de todas as raças, de todas as partes miem?

Será que tem uns gatos pingados por aí tentando chegar ao ouvido dos outros animais? Sim, acho que sim.

Miau, porque eu também posso miar. Miau, porque também posso entender miados. Miau, porque quero um espaço onde possa saber um pouco mais sobre os núcleos felinos. Miau, porque acho que o Rio de Janeiro precisa de mais gatos, cachorros, macacos, galinhas miando.

Leandro Cristóvão é professor da área de Letras. É mestre em Letras Neolatinas pela UFRJ e doutorando em Estudos da Linguagem pela PUC-Rio. Atualmente coordena o curso de especialização em Educação e Contemporaneidade do CEFET-RJ (Unidade Nova Friburgo), a partir do qual tem estabelecido conexões com artistas emergentes da cena carioca de dança contemporânea e performance.

Criada a partir de uma investigação sobre violência, a performance A sua violência, a minha violência, de Leticia Nabuco, trata de questões de gênero, manipulação e estratégias, jogos de poder. O projeto é realizado em parceria com o fotógrafo Diego Zanotti e integrou a programação de abertura da 8a. edição do Zona Oculta – Entre o Público e o Privado, organizado pelo Centro Cultural Justiça Federal (RJ).

Confiram o registro abaixo, de maio de 2011. Para mais informações sobre o projeto, clique aqui.

Como requisito de uma disciplina do Doutorado em Artes Cênicas da UNI-RIO, nossa colaboradora Monica da Costa compartilha a monografia em que estabelece reflexões e aproximações entre a Estética do Oprimido, de Augusto Boal, e duas performances de dança contemporânea: Diásporas, de autoria própria, que integra o espetáculo senha de acesso, com direção e coreografia de André Bern; e Repitologia, de Victor D’Olive. Confiram:

 

ESTÉTICAS DO OPRIMIDO EM “DIÁSPORAS” E “REPITOLOGIA”, por Monica da Costa

Este breve texto parte do diálogo entre as práticas e propostas do Teatro do Oprimido e duas performances de dança contemporânea: 1) A performance Diásporas, que tenho desenvolvido como trecho do espetáculo Senha de Acesso[1] e 2) o espetáculo Repitologia[2], de Victor D’Olive, criado no processo de sua participação como artista bolsista do Projeto coLABoratório, do Festival Panorama de Dança. O mesmo foi elaborado como trabalho final para a disciplina sobre Augusto Boal e o Teatro do Oprimido, ministrada pelo professor Zeca Ligiero, no Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UNIRIO. Nele, me propus passear pelas questões apresentadas, mais do que me comprometer a aprofundar cada discussão.

Uma das pontes de ligação entre “Diásporas” e os elementos da Estética do Oprimido está no cruzamento entre história individual e história coletiva, com seus processos de opressão e transformação, tocados, falados, sentidos, escutados e vistos na performance. Na Estética do Oprimido essas questões de opressão e transformação vão para a cena e ali são presentificadas, recuperadas, interferidas por diversos pontos de vista. Boal acredita que todo ser humano possui a potência de se ver, e que o teatro permite o contato com essa potência, de olhar sua imagem e transformá-la, operando assim uma transformação de si. O teatro, para ele, é um lugar privilegiado dessa transformação, da possibilidade de se experimentar como ser humano, criar sua própria imagem, falar por si, refletir sobre seus lugares no mundo, abrir sentidos e se posicionar.

Na performance “Diásporas” passei pelo processo de escrever e registrar em meu corpo lugares geográficos, do Brasil e da África, pelos quais eu e meus ancestrais negros e índios passamos, por onde vivemos. Acrescento lugares relacionados à construção de minha identificação como afro-descendente, atenta às questões e presenças negras, e aos rastros atuais da história da escravização no Brasil. Essas histórias e lugares não podem ser desconectados de uma memória coletiva.

O inicio do processo partiu de uma necessidade, de escrever a palavra BENIN no lado direito do meu abdômen – começando desde o umbigo, riscando pelo baixo ventre, subindo até as costelas, passando em uma linha pelo centro do corpo e fechando novamente no umbigo – da crença intuitivo-dedutiva de uma descendência familiar do Benin, além do conhecimento da passagem do meu orixá pelo antigo Daomé (atual Benin).

A partir dessa intuição e dessa necessidade, e seguindo acontecimentos que tomei como pistas, reforcei uma reflexão que vem comigo desde a adolescência sobre o fato que faz parte da vida de uma boa parte de nós afro-ameríndios: o não-saber sobre as origens familiares e geográficas dos ancestrais africanos e indígenas, não-saber sobre pertencimento, um não-saber muitas vezes acompanhado de uma dificuldade de falar sobre essa história com devidas valorizações, constatações e reconhecimentos, para seguir adiante.

Conforme ressalta Munanga (1996), a construção da identidade, neste caso, brasileira, não é fácil, é problemática:

 

Essa identidade passa pela cor da pele, pela cultura (…) passa pela contribuição do negro na sociedade brasileira (…), passa pela recuperação de sua história africana, sua visão de mundo, sua religião. (…) A questão fundamental é simplesmente esse processo de tomada de consciência da nossa contribuição, do valor da nossa cultura, da nossa visão do mundo, do nosso “ser” (…); e valorizar isso (Munanga apud Oliveira, p. 2).

 

Outra relação que faço com as propostas da Estética do Oprimido está na memória, que para Boal não existe sem a imaginação, pertencendo as duas a um mesmo processo psíquico. A imaginação, para Boal, é a memória transformada pelo desejo; a imaginação mescla memórias e segue adiante.

Uma vez que comecei, foram surgindo outras e outras memórias, movimentos, outros lugares a serem escritos no corpo, algumas metáforas e a inclusão de acontecimentos recentes. Inicialmente, escrevia no corpo apenas e me movia, sem falar, sem contar nada. André Bern, como diretor do processo, e os colaboradores Aluisio Flores e Fabio Honório, me estimularam a contar o que se passava em cada um desses lugares, relatar essas histórias, considerando que era importante e interessante que o público soubesse e entendesse claramente o que eu estava fazendo, o assunto que estava em questão ali.

Neste momento, encontrei o trecho da poesia de Jacob Sam-La Rose em grifo de Grada Kilomba (2008), tecendo sobre a necessidade de escrever. Um trecho que ecoou sobre o processo, sublinhando-o, trazendo um pouco mais de segurança no caminho inicial de construção cênica, que nos primeiros passos é sempre nebuloso, incerto, instável:

 

Why do I write?

Cause I have to.

Cause my voice,

In all its dialects

Has been silent too long

Jacob Sam-La Rose

(“Por que escrevo? Porque preciso. Porque minha voz, em todos os seus dialetos, têm estado silenciosa por muito tempo”)

Os conteúdos de memória que vou evocando na performance falam de questões de opressão e superação, de violências vividas por ancestrais afro-ameríndios, mas ao mesmo tempo de decisões de liberdade e coragem dos mesmos, de histórias contadas por tias-avós e de experiências minhas percorrendo uma construção identitária como mulher afro-ameríndia, herdeira de todas essas histórias, atenta às presenças negras em diversos espaços e, em alguma medida, inventora da uma história singular que reconhece a construção de gerações anteriores. Cada lugar escrito no corpo – Benin, Ghana, Ketu, Bahia, Brasil, Rio, São Gonçalo, Itaocara, Ilhéus, Humaitá, Vila Isabel, Fundão, Salvador, Ponte Rio-Niterói, Tijuca e Engenho de Dentro – possui relação com acontecimentos e construções identitárias, com migrações e deslocamentos.

Na escrita de Itaocara, conto: “Aqui, terra da minha avó, meu bisavô saiu do engenho com uma aliança na mão e uma esteira na outra”. Na Tijuca, conto que “chorei por uma madrugada inteira porque não nasci negra pura linda, com um metro e setenta, cabelo longo trançado”. Em Ilhéus, “Ela foi laçada e batizada com nome português”. No Benin, “Aqui tivemos que dar muitas e muitas voltas no baobá antes de sermos mandados para cá”. E assim seguem as memórias entrelaçadas, saindo do corpo e, ao mesmo tempo, sendo reforçadas, inscritas nele.

Em “Repitologia”, as memórias são de situações vividas no projeto coLABoratório, do Festival Panorama de Dança, em processos de criação e colaboração artísticos que contribuíram para que o autor, Victor D’Olive, desenvolvesse uma hesitação em se mover e em criar.

Victor entra em cena se movendo de um modo muito particular e fala para o público: “Essa movimentação que apresento é de hesitação”.  Explica que a hesitação resultou de uma série de críticas que recebeu durante as residências do coLABoratório e declara cada crítica, citando nomes e situações, construindo um ambiente que, ao mesmo tempo que trata de questões sérias, é engraçado, pela sua maneira de contar, à medida que beira o absurdo.

Ele tomou as críticas e intervenções opressivas de outros artistas colaboradores à sua movimentação e ao seu gesto repetitivo e insistente como inquietação para a criação e como conteúdo discursivo, compartilhado durante a performance. Tendo revelado as diversas declarações que recebeu e nomeado cada artista que fez tais assertivas, Victor pede a dois voluntários da plateia que o impeçam de realizar o gesto insistente, gesto- alvo de tantas críticas. Apesar das tentativas efetivas dos voluntários, ele ainda assim consegue realizar de alguma maneira o seu gesto, dar sinais dele.

Victor está ali transformando um papel esperado a priori como bailarino e colocando em questão as próprias relações de trabalho, as relações artísticas que foram ponto de partida para sua construção cênica. Eu, de outra maneira, em “Diásporas”, não me coloco como personagem, nem no lugar tradicional de bailarina ou intérprete, mas como uma mulher contando fragmentos de sua própria história, que pode ser parecida com a história de muitos afro-brasileiros.

Esses modos de estar e construir em cena, me remetem imediatamente ao que Boal afirma ser o Teatro do Oprimido. “O teatro do oprimido, por exemplo, é o contrário do que se chama role playing, ou seja, representar um papel, algo que se usa muito em indústria.” (Boal, 2003). Ele acrescenta:

 

Então o teatro o que é que é? É um lugar que não deve jamais reiterar essa atitude fascista, essa atitude autoritária. O teatro deve ser sempre o lugar da dúvida, o lugar da pergunta, o lugar da identidade de cada um. (Boal, 2002, p.242)

 

Outros diálogos entre as performances e a Estética do Oprimido surgem, partindo de uma consideração de Boal sobre os quatro elementos ou caminhos para desenvolver essa estética:

 

“Queremos desenvolver a estética do oprimido. Para tanto há quatro caminhos principais: o primeiro é o da palavra (…), o segundo caminho é o do som (…) o terceiro vértice, por sua vez, é a imagem, (…) a última vertente (…) é a ética”. (p.184-185)

 

Nos dois processos e nos dois “produtos artísticos” encontramos a presença desses elementos da Estética do Oprimido, embora não sejam todos trabalhados em profundidade, nem tenham partido dessa proposta.

O projeto de Boal com a Estética do Oprimido se casa com práticas e pensamentos de dança que percebem o lugar desta linguagem e o poder do corpo na construção da memória e da identidade, e vice-versa. Esse pensamento afirma que, uma vez que uma pessoa conheça seu corpo, sua sensorialidade, o uso que pode fazer com todos os seus sentidos e possibilidades de criação, seu pertencimento à si mesma e seu lugar na coletividade, não pode facilmente ser homogeneizada ou submetida a qualquer outra tirania. Nas palavras de Emanuel Carneiro Leão: “Acontece realmente um aprender, quando a compreensão do que se tem, for e vier a ser sempre um dar-se a si mesmo sua própria identidade” (Leão, 1977, apud Calfa, 2006, p.66).

 

Palavra falada

 

Reservo lugar especial para a discussão sobre a fala porque ainda hoje se apresenta como um impasse na dança, uma dificuldade para a maior parte dos bailarinos. Mesmo em meio a tantos discursos da contemporaneidade, da integralidade e da transdisciplinaridade artística, a fala é equivocadamente entendida como uma ação especializada que não é do domínio da dança, que não sabemos fazer bem ou que só deve ser usada quando muito necessário, quando “o corpo” ou o movimento não dá conta do que temos necessidade de poetizar.

Em “Diásporas”, como citei anteriormente, me permiti e fui encorajada na aprendizagem de falar enquanto danço, contando histórias, sem as quais o que realizo não teria o mesmo teor, a mesma importância e clareza. As leituras de Boal, no decorrer destes meses coincidentes com o processo de criação da performance, o encorajamento dos colegas e a necessidade e escolha estética de falar dessas questões, explicitá-las, serviram como um empurrão em um processo, mesmo que mínimo, de transformação na relação com a fala em cena.

Para além das questões “técnicas” cênicas, falar, assim como dançar, é assumir um discurso, um risco, é se colocar em uma posição sobre aquilo do que se fala. A palavra falada possui uma força afetiva e energética que o texto escrito muitas vezes não possui, sobretudo a palavra emitida pelo sujeito da ação, por aquele que realmente esteve no acontecimento histórico que conta ou que faz parte de um grupo que sofreu deste acontecimento, mesmo que sua fala não carregue a emoção do mesmo. Conforme versa Boal:

 

O que é uma palavra? Não é nada e é tudo! (…) A palavra é um vazio que preenche um vazio existente entre um ser humano e outro. Isso é a palavra! Quando rasgamos a areia da praia, esculpimos no vento um som, esse vazio pode se encher daquilo que queremos: nossos desejos, vontades, pensamentos. Palavras são adequadas para transportar desejos, pensamentos, necessidades, reflexões. (Boal, 2009, p.183)

 

Em “Repitologia” ocorre algo muito interessante. Falar em cena foi uma das ações categoricamente criticada por um dos artistas convidados para coordenar uma residência do projeto, sugerindo que Victor não devia falar em cena porque não é ator. Ali foi ignorada sua necessidade de falar e potência de desenvolvê-la para a cena, como se bailarino fosse um ser incapaz de usar a palavra. O interessante é que além de seguir falando e levar a fala de maneira extremamente engraçada para a cena, Victor usa justamente a palavra falada para contar essa crítica recebida, citando inclusive o nome do coreógrafo, despertando risos descontrolados da plateia e o sentimento do absurdo ao mesmo tempo.

No entendimento e na experiência da Estética do Oprimido, essa seria uma visão especializada da arte, como no trabalho industrial, onde cada um possui uma função muito específica e não desenvolve saber sobre outras ações, papéis e desejos. Ser e fazer teatro para Boal está para além dessa especialidade.

 

Com o público

 

Até aqui as relações entre as duas performances e a Estética do Oprimido seguiram sem atritos. Uma questão surge quando pensamos a ação do público nessas performances, especialmente em “Diásporas”, e se suas características nesse sentido impedem a relação com a Estética do Oprimido.

No processo de criação de “Diásporas”, em nenhum momento pensamos em uma participação mais direta do público, ou em uma abertura à sua ação, refletindo sobre suas próprias histórias ou reconstruindo a cena, mas apenas na importância da troca, do olhar, da clareza da fala, da inteligibilidade da escrita no corpo, da necessidade de ter um retorno do publico sobre o que estamos construindo, sempre com uma preocupação que ecoe, que tenha algum diálogo possível, que não seja hermético, com a clareza que não é algo para nós mesmos apenas, e com a intenção que as questões expostas na performance estejam aparentes. Essa ausência de interferência direta do público, de abertura para sua própria ação, afasta esta performance de uma Estética do Oprimido?

Há autores da Performance que afirmam que a interferência e a questão da atividade do público na cena está para muito além de sua presença como ator na mesma, no “palco”, e de alguma interação corporal direta entre intérprete e público. O público, mesmo na posição de observador, está em ação e presença, compartilha, determina as trocas com os atores, reflete, escolhe ver isso ou aquilo, interpreta, e essas são atividades fundamentais. Nesse sentido, Boal observa:

 

(…) Nós não queremos que venha alguém nos mostrar o bom caminho, porque vamos cair de novo na mensagem; nós queremos que muitos mostrem muitos caminhos, para que a gente estimule a platéia a não receber uma imagem já pronta da realidade, mas a transformar essa imagem. (Boal, 2002, p.256)

 

Quais outras contribuições poderíamos ter para a discussão e afetação  provocadas com a performance se a concebêssemos convidando outra pessoa a recontar essas histórias contadas, criar suas versões, transformar da maneira como quisesse o que conto e faço? São perguntas que a leitura da Estética do Oprimido me provocaram.

Ao contrário do que se passa em “Diásporas”, a concepção de “Repitologia” envolveu uma intervenção direta do público. Contudo, essa intervenção é definida pelo criador-intérprete. Depois de contar a série de críticas que recebeu em relação ao seu gesto, julgado como repetitivo, e de demonstrar o gesto dançando, Victor convida dois voluntários da plateia a ajudá-lo a deixar de repetir o tal gesto, deixar de dançá-lo, impedi-lo. E então se dá uma cena hilária em que os voluntários de fato seguram Victor de todas as maneiras impedindo-o de se mover, mas ele ainda assim, com qualquer parte do corpo que esteja um pouco mais livre, realiza o tal gesto, e é perceptível pelo público essa tentativa do gesto feita “nos últimos suspiros”.

Quando solto pelos voluntários, Victor torna a realizar o movimento idêntico, e eles tornam à capturá-lo. A cena hilariante constrói e deixa ver uma série de imagens e um discurso que nos remete a muitas outras relações de poder, impedimento físico forçado e resistência. Embora a cena não se abra para outras interferências do público, nem para sua reconstrução por perspectivas diversas, está preenchida por toda uma Estética do Oprimido em seus elementos principais e chega a se parecer com as experiências de teatro invisível narradas por Boal.

As construções de formas simples nas quais o público também pode se ver fazendo, se ver naquele lugar, e a tematização de histórias individuais e coletivas no caso de “Diásporas”, comuns à história brasileira, assim como de histórias de relações de trabalho e de críticas de dança, como em “Repitologia”, também podem ser vistas como estéticas que possuem uma relação importante com o público, completamente distintas da estéticas clássicas de dança, muitas vezes presentes em coreografias que se nomeiam contemporâneas.

O trabalho de Victor D´Olive, assim como o de Charlene Saad – “Rótulo: Impressões sobre o Corpo” – inclusive pelo nosso pertencimento a uma mesma geração, e pelo modo cotidiano de falar em cena, foram estímulos para que eu ficasse mais à vontade em encontrar o lugar da fala no meu trabalho, mesmo sabendo do desejo e da necessidade particular de desenvolvê-la mais, não pela exigência alheia, mas pela força que a palavra tem, e por um desejo de melhorar, transformar, potencializar, passar por obstáculos, poetizar a voz e poder escolher como fazer, não encaixotá-la em um formato apenas pela limitação de desenvolver outro. O encontro dessas performances com a Estética do Oprimido, e principalmente em relação ao meu próprio trabalho em “Diásporas”, trouxe a possibilidade de pensar muitas questões, produziu movimento e atrito, seja no sentido da indagação sobre a amplitude e delimitação dessa Estética, seja nas provocações éticas e estéticas que, em relação à “Diásporas”, podem ainda gerar aberturas e mudanças de processo e produto cênico, de concepção e caminhos.


[1] Senha de Acesso é um espetáculo de dança contemporânea que partiu da memória como mote para criação, mas não tem necessariamente a mesma como tema. É dirigido e coreografado por André Bern, com criação e interpretação de André Bern, Aluísio Flores, Fábio Honório e Monica da Costa, e orientação de Esther Weitzman. O projeto de pesquisa e criação do espetáculo foi contemplado pela Secretaria de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.

[2] Repitologia é um espetáculo de dança contemporânea de Victor D’Olive criado a partir das experiências em sua participação como artista bolsista no Projeto coLABoratório, do Festival Panorama de Dança. O projeto é um programa internacional de residências, com duração de 7 a 8 meses, desenvolvido entre a Associação Cultural Panorama (RJ) e o Núcleo do Dirceu (PI). coLABoratório consiste de 7 coreógrafos, bailarinos, diretores e/ou performers nacionais e internacionais, que desenvolvem uma residência cada, com 8 artistas bolsistas, em sua maioria brasileiros. O cerne do projeto é o trabalho colaborativo entre os artistas.

 

Referências Bibliográficas

BOAL, Augusto. Teatro do Oprimido e Outras Poéticas Políticas. Editora Civilização Brasileira, 2ª edição.

BOAL, Augusto. Augusto Boal em GARCIA, Silvana (org). Odisséia do Teatro Brasileiro. São Paulo, Editora SENAC São Paulo, 2002.

KILOMBA, Grada. Plantation Memories. Episodes of Everyday Racism. Münster: UNRAST-Verlag, 2008.

LIGIERO, Zeca. Augusto Boal em LIGIERO, Zeca; PEREIRA, Vitor Hugo Adler; TELLES, Narciso (Orgs). Teatro e Dança como Experiência Comunitária. Rio de Janeiro, EdUERJ, 2009.

MUNANGA, Kambemlê. As facetas de um racismo silenciado, in SCHWARTC, L; QUEIROZ, R. Raça e Diversidade. São Paulo, EDUSP/Estação Ciência, 1996.

OLIVEIRA, Julvan Moreira de. Educação e Africanidades: Contribuições do Pensamento de Kabengele Munanga.

 

Monica da Costa é bailarina, performer, coreógrafa e doutoranda em Artes Cênicas pela UNI-RIO.

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